COLÉGIO INTERAMERICANO DE DEFESA

DEPARTAMENTO DE ESTUDIOS

CLASE XL

 

 

TRABALHO DE INVESTIGAÇÃO ACADÊMICA

 

  

 

TEMA

 

“A Influência da Globalização na Integração e Segurança do Continente Americano”

 

 

 

LUIZ CÉSAR ALBUQUERQUE CAZARIM

Coronel Aviador

Força Aérea do BRASIL

 

 

 

 

 

Washington D.C., abril de 2001

 

 

Trabalho de Monografia apresentado ao Colégio Interamericano de Defesa como requisito para a obtenção do Diploma de conclusão do Curso Superior de Defesa Continental.

 

 

 

Washington D.C., abril de 2001

 

 

 

Certifico que examinei este trabalho de investigação e o encontrei de acordo com as normas e metodologia do CID e aceitável quanto ao conteúdo científico e linguagem

 

 

                 ASSESSOR COORDENADOR:

                                                                                Coronel      Johnny Mendonça

DATA: Fort Lesley Mc Nair, Washington D.C., abril de 2001

 

 

 

NOTA ACLARATÓRIA

As opiniões emitidas no presente trabalho de investigação são de exclusiva responsabilidade do autor e não representa a posição do C.I.D.,nem do país que represento.

 

AUTORIZAÇÃO

Autorizo ao Colégio Interamericano de Defesa a publicação deste trabalho, como artigo para Leitura Selecionada ou na Revista do Colégio desde que seja citada a fonte e o autor.

 

 

 

 


INTRODUÇÃO

 

Selecionei este tema para abordar neste trabalho, porque nele vi a oportunidade de discorrer sobre profundas reflexões que venho acumulando na minha vida profissional e pessoal, a respeito das expectativas humanas, a respeito dos caminhos e destino da sociedade e da humanidade, a respeito das Relações Internacionais, a respeito das expectativas dos Estados Nacionais e das possibilidades que possam existir para que o mundo seja um palco de convivência, não só pacífica, mas solidária e fraterna, onde o homem, como indivíduo, possa conquistar sua realização e felicidade.

Tendo em vista que a grande parte dos trabalhos analíticos dessa natureza são ricos em argumentos fundamentados em estatísticas e gráficos, corro o risco de não agradar àqueles que os valorizam e, até mesmo, os consideram indispensáveis. Adotei uma abordagem voltada para uma análise menos mecanicista, com ênfase no comentário de idéias. Acredito que a pirâmide representativa da sabedoria tem quatro lados: ciência, filosofia, arte e religião. Não creio na abordagem simplesmente científica, que, na maioria das vezes, nega as verdades das outras fontes do conhecimento e se nega a considerar valores abstratos. A argumentação cartesiana é muito forte e persuasiva, porém, pode transmitir falsas idéias travestidas de verdades inquestionáveis. Tenho me deparado com a existência de indicadores que não abrangem o todo e com a ausência de indicadores que considerem fatores fundamentais para uma análise responsável. Creio que a razão disso é porque esses indicadores estão voltados para os efeitos, não nos permitindo, portanto, ter uma visão clara das causas, o que ofusca a nossa compreensão e torna praticamente impossível a busca de soluções.

É importante salientar ainda, a guisa de introdução, a convição que dirige todos os meus outros pensamentos. Acredito ser extremamente necessário que todas as ações e idéias que envolvam o Estado, ou os Estados, devam ser pautadas numa ordem muito elevada de valores para que sejam legítimas. E aqui emergem duas idéias principais: O conceito de Bem-Comum e a caracterização humanitária e espiritualista que deve permear os planejamentos político-estratégicos.

O Bem Comum é aquele “ideal de convivência que, transcendendo a busca do bem-estar, permite construir uma sociedade onde todos, e cada um, tenham condições de plena realização de suas potencialidades como pessoa, e de conscientização e prática de valores éticos, morais e espirituais”.[1]

O Homem é um Ser completo, matéria e espírito, dotado de uma elevada potencialidade para o bem, embora, por não estar ainda aperfeiçoado, esteja sujeito a ilusões que o induzem para metas egoístas e desagregadoras. Acredito, portanto, na dignidade inerente à natureza transcendente do Homem, o que exige que todas as políticas e estratégias devam para ele ser orientadas, principalmente, no sentido de permitir o seu completo aperfeiçoamento interno.

Ao procurar analisar “A influência da Globalização na Integração e segurança do Continente Americano”, não pretendo me prender somente aos aspectos induzidos pelo tema do trabalho, pretendo estender a sua abrangência no sentido de procurar a verdadeira causa dos problemas, que serão levantados, com o fim de propor uma solução adequada às suas resoluções.

O trabalho inicia com uma análise do Sistema Interamericano; e, através dessa análise, chego à convicção de que, simplesmente, não existe, até os dias atuais, a integração entre os países das Américas. Isto pode parecer uma conclusão muito forte, mas como pretendo demonstrar, é uma verdade, pelo menos, se consideramos que integração tem o sentido de tornar inteiro pela união das partes.

Não havendo integração, sobressaem as diferenças, as quais se refletem na segurança como um todo. Mesmo considerando que muitos países das Américas não percebem uma ameaça verdadeira; mesmo considerando que as ameaças que vêm sendo aceitas por todos podem ser, na verdade, resultado da percepção de apenas um ou de poucos países; é necessário que se faça uma avaliação eficiente no sentido de tentar identificar uma ameaça que seja comum a todos os países e que seja aquela que mais danos tem causado.

Na busca dessa identificação, analiso a “globalização” e a “cultura Pós-Moderna”, procurando mostrar que esses dois fatores são, na realidade, os elementos catalizadores de um contexto de instabilidade nas Américas que leva a sua sociedade à infelicidade.

Entretanto, quando procuro a “causa verdadeira”, me deparo com o homem, como ser humano, sendo, como não poderia deixar de ser, o gatilho de toda essa situação; e, sendo assim, procuro analisá-lo mais detidamente e acabo por propor uma linha de ação baseada na construção de uma realidade que dê a ele a oportunidade do aperfeiçoamento interno com o objetivo de, a partir desse momento, se tornar mais habilitado a conduzir, tanto a si próprio como a sociedade, para o alcance da felicidade e da verdadeira realização.

 

 

 

CAPÍTULO 1

 

O SISTEMA INTERAMERICANO

 

“Nenhum povo poderia viver, se antes não avaliasse o que é bom e o que é mau; mas, se quer conservar-se, não deve fazê-lo da mesma maneira que o seu vizinho.

Muitas coisas que um povo considerava boas, considerava-as, outro, como escárnio e opróbrio; foi o que achei. Muitas coisas achei, aqui, chamadas mal e, acolá, ornadas de purpúreas honrarias.

Nunca um vizinho compreendeu o outro: sempre a sua alma admirou-se da insânia e da malvadez do vizinho. Uma tábua está suspensa por cima de cada povo. Vede, é a tábua do que ele superou, é a voz da sua vontade de poder.”[2]

 

 

Mesmo sendo um movimento dentro da dinâmica da História, o Sistema Interamericano tem sido objeto das mais variadas interpretações. Para alguns é um sonho de realização impossível; para outros, uma nobre tentativa de convivência pacífica e cooperativa entre nações; e para outros, ainda, seria um manto de disfarce de desígnios imperialistas.

Através dos anos, a convivência dos países do continente americano tem sido marcada por uma instabilidade nas relações internacionais.

Com o crescimento da importância, no concerto internacional, das nações do continente americano, que se emancipavam no século XIX, ganhando força política, estratégica e econômica, a Íbero-América passou a ser vista como espaço promissor para os interesses da Inglaterra e dos Estados Unidos da America do Norte.

Percebendo esta situação, o então Secretário de Estado dos EUA, John Quincy Adams, alertou ao Presidente James Monroe no sentido de desenvolver uma política mais significativa voltada para a Íbero-América, o que resultou na Doutrina Monroe, divulgada em uma mensagem anual ao Congresso dos EUA, em 2 de dezembro de 1823. Essa mensagem afrontava as pretensões absolutistas dos países da Europa com referência ao continente americano, como se pode ver nos seguintes trechos: “Os continentes americanos, por sua livre e independente condição atual, não podem, doravante, se considerar objeto de futura colonização por parate de nenhuma potência européia...O sistema político das potências aliadas é essencialmente diverso do americano...Devemos, pois, à franqueza e às boas relações de amizade existente entre os Estados Unidos e esses países, declarar que consideraríamos toda tentativa de sua parte, visando prolongar seu sistema a qualquer porção deste hemisfério, como perigo a nossa paz e segurança.”

Surgiu, assim, a primeira tentativa de uma doutrina continental que formulava a palavra de ordem “América para os Americanos”. Pouco havia de interesses baseados em afinidades ou de ideais de solidariedade e fraternidade. Foi, antes de tudo, um ato unilateral com pretensões hegemônicas, que não contribuiria em nada para aproximar a Íbero-América dos EUA. Como disse Oliveira Lima: “foi uma teoria de governo para uso particular do inventor e um compromisso unilateral, ou tomado só com a população nacional, de seguir certa regra de proceder internacional.”

O “Monroismo”, desta maneira, provocou reações negativas tanto na Europa, que temia o nacionalismo e o liberalismo que nascia no continente e os quais se propunha a combater com a sua política de intervenção, como nas nações hispano-americanas, resultado de um esfacelamento geopolítico que as colocava em vulnerabilidade frente às pretenções colonialistas da Europa e a unidade dos EUA e do Brasil.

Dessa forma, Simon Bolivar convidou os países americanos para uma reunião na Cidade do Panamá, em 1826, onde propôs a formação da Liga das Nações, a qual se constituiria como uma confederação de estados independentes na qual nenhum seria mais fraco ou mais forte, sob os princípios da segurança coletiva, do arbitramento e da conciliação.

Segundo a professora Terezinha de Castro, geopolítica brasileira de renome internacional, Bolívar, como Maçom Vermelho, além de ter o ideal de congregar meios de resistência contra a intervenção da Espanha numa América Espanhola em face de independências, tentava, ainda, realizar a unidade de uma América Republicana para fazer frente a uma Europa Monarquista aliada da Maçonaria Azul, deixando, desta forma, o Brasil de lado, reduto de Maçons Azuis, tido como pernicioso ao americanismo.

Refere-se ela a um trecho do livro “Ensayo sobre la Necesedad de una Federación General entre os Estados Hispanos”, de B. Monteagudo, onde ele afirma o seguinte: “Ao examinar os perigos do futuro que nos espera, não devemos ver com confiança o novo império do Brasil...tudo nos leva a acreditar que o Gabinete Imperial do Rio de Janeiro se prestará a auxiliar as ambições da Santa Aliança contra as Repúblicas do Novo Mundo; e que o Brasil virá a ser, talvez, o quartel general do partido servil, como já se assegura que é hoje o dos agentes secretos da mesma Santa Aliança.”

O ideal de Bolívar, portanto, era unir os núcleos geohistóricos hispânicos do continente, o que provocou a desconfiança dos EUA que enviou delegados que, prudentemente, chegaram após o encerramento do Congresso do Panamá. Na mesma esteira dessa desconfiança, as Províncias do Rio da Prata e o Chile, dissidentes desde o encontro Bolívar/San Martin, em Guayaquil, em 1822, não se fizeram representar no Congresso.

Com os mesmos enganos estruturais do Monroismo, o Bolivarismo não irmanaria a Íbero-América.

Imperava o regionalismo, no lugar do continentalismo. Esse regionalismo iria levar a tratados e alianças que enfrentassem as pretensões espanholas de reconquista e as intervenções francesas no México. Isto faria crescer a desunião, que levaria à Guerra EUA/México, a Tríplice Aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai a iniciar uma guerra contra Solano Lopez no Paraguai e culminando com a Guerra do Pacífico entre Chile, Perú e Bolívia

Em um esforço para acabar com as guerras entre países do continente, Washington sediou a Primeira Conferência Internacional Americana (1889/1890), apesar de ter, desde o Congresso do Panamá, desenvolvido uma política de desinteresse pela Íbero-América. Criava-se, então, a União Internacional das Repúblicas Americanas, sediada em Washington, e a Secretaria Comercial das Repúblicas Americanas. Em 1910, foi inaugurado o Palácio de Mármore, o qual, como Casa das Américas, passava a substituir a Secretaria Comercial.

Em 1904, o Presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, anunciou, como política exterior, o seu Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, o qual dava aos EUA o direito de intervenção militar nos países da Íbero-América, o que ficou conhecido como a política do “Big Stick”.

Apesar desses esforços no sentido da paz, no período compreendido entre 1898 e 1933, os EUA conduziram diversas intervenções em países do Caribe e da América Central.

Em 1936, em Buenos Aires, foi elaborada a Declaração dos Princípios de Solidariedade e Cooperação Interamericana.

As duas guerras mundiais foram os fenômenos que mais concorreram para a aproximação dos países americanos. Em 1942 foi criada a Junta Interamericana de Defesa e, em 2 de setembro de 1947, no Rio de Janeiro, por ocasião da Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança do Continente, foi assinado o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), que estabelecia a ação conjunta para a repulsa de agressão dirigida contra qualquer República das Américas.

Em 30 de abril de 1948, as 21 repúblicas americanas assinam a Carta Contitutiva da associação que toma o nome de Organização dos Estados Americanos (OEA).

Apesar da natureza, dos propósitos e dos princípios que regem a Carta da OEA, em nome da Democracia, os EUA, em 1962, invadiram Cuba (ocasião que os EUA invocaram o TIAR e seus membros o apoiaram totalmente); em 1983, invadiram Granada; em 1989, invadiram o Panamá e, em 1994, fizeram uma intervenção no Haití.

Em 19 de março de 1982, estourava a Guerra das Malvinas entre a Argentina e a Inglaterra. Em 8 de abril, os EUA apoiariam oficialmente a Inglaterra, sua aliada na OTAN. O Presidente Ronald Reagan declarou que não permitiria que a Inglaterra fosse derrotada no Atlântico Sul. Isto levou a Argentina a invocar o TIAR, solicitando a convocação urgente da Assembléia da OEA. Os países membros votaram uma Resolução reconhecendo os direitos de soberania da Argentina sobre as Ilhas Malvinas, com 17 votos favoráveis, nenhum contrário e 4 abstenções (Colômbia, Chile, Trinidad e Tobago e EUA).

A crise das Malvinas mostrou a fragilidade e inconsistência do Sistema Interamericano para promover a integração e a segurança do continente. Tanto o TIAR como a OEA mostraram-se simbólicos e pouco efetivos.

Com a opção dos EUA pela defesa da estratégia de manter as Malvinas como objetivo da OTAN e com a perda da legitimidade do TIAR, em 1986, o Presidente do Brasil, José Sarney, tomou a iniciativa de propor o projeto do que se intitularia “Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul” (ZPCAS) aos governantes da Argentina, Angola, Cabo Verde, Congo, Guiné, Guiné Bissau, Nigéria, Senegal e Uruguai. O Projeto foi aprovado na ONU com o voto contrário apenas dos EUA, que, com isso, procurava evitar o “fechamento” da região às estratégias militares do Pentágono, priorizando o eixo Leste/Oeste e revivendo o conceito de Foster Dulles, para quem a política dos EUA não deveria se preocupar em fazer amigos, e sim em defender seus interesses.

Além desse fato, a política dos Direitos Humanos do Governo Carter, a qual já vinha se impondo desde 1976, iria reduzir a eficácia geoestratégica do eixo Norte/Sul com o declínio da assistência militar e a capacidade dos países do flanco meridional de apoiar os interesses dos EUA.

Com o crescente enfraquecimento das relações continentais, aumenta o regionalismo e, em 26 de março de 1991, era assinado o Tratado de Assunção entre o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, criando o MERCOSUL.

Em 12 de agosto de 1992, nasce o NAFTA, o qual congrega os EUA, o Canadá e o México.

Outros acordos e grupos nascem entre os países do Caribe e os países andinos.

Tentando recuperar a liderança e o domínio no continente, os EUA entram numa corrida para aprovar, o mais rápido possível, a criação da ALCA, que pretende congregar todos os países dos continentes num único sistema hemisférico de livre comércio. Acordo esse que terá mais a beneficiar aos países desenvolvidos do continente do que os países emergentes ou em desenvolvimento, já que esses necessitam de mais tempo para tornar suas economias competitivas, bem como para discutir medidas que ofereçam tratamento igual a todos os membros do grupo. Se não for assim, o acordo em questão poderá se transformar na garantia de livre mercado que os países mais fortes terão para seus produtos sem uma contrapartida para os países emergentes ou em desenvolvimento.

No âmbito do Sistema Interamericano, existem diferenças significativas nos interesses nacionais dos países e em suas políticas exteriores, principalmente, dos EUA com o restante da América Latina. Diferenças essas que vêm trazendo obstáculos de importância para o desenvolvimento da região e para o alcance dos objetivos de integração e segurança continental.

Ao observar o objetivo de “reforçar a Democracia”, fico pensando se isso não está se tornando uma pressão “ideológica” para que o mundo adote o modelo de Democracia norte-americano. Pressões semelhantes a essa já vimos acontecer com o Nazi-Fascismo e o Movimento Comunista Internacional.

Penso, ainda, no direito que têm os povos, como estabelece a carta da OEA, de terem plena participação nas decisões relativas ao seu próprio desenvolvimento, podendo escolher seu próprio destino. No direito que têm esses povos ao exercício da criatividade, a qual poderá visualizar outros meios de aperfeiçoamento democrático que não os que estão, constantemente e ortodoxamente, sendo propostos e impostos.

De forma hegemônica e unilateral, sobrepujando o Direito Internacional, os EUA buscam impor suas leis internas a países estrangeiros, assim como foi com a Lei Helms-Burton, interditando o comércio com Cuba; com a Lei D’Amato-Kennedy, bloqueando intercâmbios com o Iran e Líbia; e com a Doutrina Thornburg (1992), autorizando o Poder Executivo, Polícia e Forças Armadas norte-americanas, a prender qualquer cidadão, em qualquer parte do mundo, para julgá-lo em tribunais norte-americanos

Na década de 90, com o fim de intensificar o seu comércio com o Japão e com os “Tigres Asiáticos”, o Brasil firmou um acordo com o Perú para a construção de uma rodovia que lhe desse uma saída para o Pacífico. Essa obra seria realizada com recursos do Fundo Nakasoni, do governo japonês. Porém, por causa das ameaças feitas pelos EUA, o investimento não foi feito e a obra não se realizou, impedindo, dessa forma, que o Brasil desse um passo importante no sentido do seu desenvolvimento.

As relações comerciais têm sido tensas e com tendências a se agravarem, devido a tentativa, dos países desenvolvidos do continente, como EUA e Canadá, de impedir o desenvolvimento dos demais.

Esta lamentável constatação é, ainda, agravada devido a ser a Organização Mundial do Comércio (OMC), o fórum internacional para assuntos de comércio, uma instituição formada para a defesa somente dos interesses dos países do G-7.

Dos fatos existentes que possam exemplificar essa realidade, talvez, o mais significativo, tem sido o que vem ocorrendo entre o Canadá e o Brasil. Há mais de quatro anos, ambos os países vêm travando uma disputa na OMC que envolve o mercado internacional de aeronaves de médio porte. De um lado está a Bombardier (empresa canadense) e do outro a Embraer (empresa brasileira). Este contencioso se transformou, no início deste ano, em uma verdadeira guerra comercial, na qual o Canadá vem tentando, de todas as formas, impedir a justa participação do Brasil na competição do mercado em questão. Quando digo “de todas as formas”, quero dizer que estão se utilizando, inclusive, de medidas intempestivas, não-diplomáticas e que contrariam frontalmente as regras da boa convivência e do Direito Internacional. Um exemplo disso é a suspensão de importação de carne bovina brasileira sob a acusação de “estar sob risco da doença da vaca-louca”. Procuram, ainda, estabelecer outras retaliações comerciais, já autorizadas pela OMC. Numa busca desenfreada de garantir seus interesses individuais, o Canadá vem ferindo abertamente a Carta da OEA, organização que, inclusive, tem ficado à margem do problema, dando-nos a noção exata da existência de pressões desiguais e arrogantes por parte de países mais desenvolvidos sobre aqueles que, almejando a  ascenção, começam, no universo das competições comerciais, a incomodar as pretensões dos mais fortes.

Podemos analisar o artigo 38 da Carta da OEA, o qual refere-se à tecnologia, a luz dos fatos que se seguem.

No ano passado, a empresa brasileira Mectron foi contratada pelo governo do Brasil para realizar o desenvolvimento, sob coordenação do Centro Técnico Aeroespacial, de um míssil anti-radiação de curto alcance. O Departamento de Estado dos EUA emitiu um documento (doc.DCT case número 750002, de 4 de março de 1999), negando a uma empresa norte-americana a autorização de venda ao Brasil de uma antena necessária ao projeto. Esse documento declara que “anti-radar technology is not releasable for national security reasons. This technology exceeds the level of capability approved for Brazil. Entretanto, o que torna mais sério esse assunto no contexto do continente americano é que, em 1982, os EUA entregaram à Inglaterra mísseis AGM-54 anti-radiação para que fossem lançados contra um país do Sistema Interamericano, a Argentina.

As tentativas de desenvolvimento da energia nuclear por países do continente foram totalmente desarticuladas pelo governo dos EUA, mesmo sendo as intenções desse desenvolvimento para fins pacíficos.

Gary Milhollin, professor da Universidade Wisconsin School of Law e diretor do projeto Wisconsin de controle de armas nucleares em Whashington, preparou uma exposição para o Subcomitê para Assuntos de Comércio, em 27 de setembro de 1990, criticando o sistema de controle de exportação norte-americano, que estava permitindo a transferência de tecnologia para países emergentes, facilitando para que esses países obtivessem a capacitação para tornarem-se independentes no desenvolvimento de armas nucleares e mísseis estratégicos de longo alcance.

Dentre os argumentos que apresentou, referiu-se aos invólucros de foguetes brasileiros, do programa VLS, que foram mandados para tratamento térmico nos EUA. Referiu-se, ainda, a aquisição, pelo Brasil, de um supercomputador destinado à EMBRAER; posicionando-se contra essa permissividade, tendo em vista que isto permitiria ao Brasil expandir sua capacidade de obter armamento nuclear e mísseis estratégicos de longo alcance.

Em junho de 1996, o “Office of Defense Trade Control”, do Departamento de Estado dos EUA, emitiu um parecer à “Loral Corporation”, negando pedido de fornecimento ao Brasil de apoio à programas de foguetes, por motivos de Segurança Nacional e devido à política americana, em vigor, de não proliferação.

No dia 31 de março de 1999, em audiência pública à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, no Congresso Nacional do Brasil, em resposta à pergunta do Deputado Neiva Moreira, do Maranhão, sobre o Centro de Lançamento de Alcântara, o então Ministro da Aeronáutica, Tem. Brig. do Ar Werner Bräuer respondeu o seguinte : “...o que fizemos, para conseguir recursos para desenvolver Alcântara e o nosso Programa Espacial, que, também, depende de recursos gerenciados pela Presidência da República, por meio da Agência Espacial Brasileira (AEB) ? fizemos um convênio com a INFRAERO, que tem capacidade gerencial maior do que a nossa, e, com um convênio específico, ela está gerenciando o CLA. A finalidade é a comercialização de Alcântara...entretanto, as negociações têm sido bastante dificultadas por razões exógenas. Disso decorre, imagino, um bloqueio mais comercial do que tecnológico. Nós passamos a ameaçar lucros de outros países que vivem muito bem sem a nossa presença. E isto está sendo sentido, neste momento, de maneira bastante explícita...” (grifo meu).

O Ministro Antônio Menna Gonçalves, em palestra na Escola Superior de Guerra do Brasil, no dia 9 de junho de 1999, declarou que : “...Os EUA torpedeiam o CLA. Tentaram impedir, inclusive, as últimas tentativas de fechamento de contrato com a Itália e a Ucrânia, por razões alegadas de não proliferação, apesar de entendermos que seja por razões comerciais...”

O Brasil firmou com os EUA, em 18 de abril de 2000, o “Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América do Norte sobre salvaguardas tecnológicas relacionadas à participação dos EUA nos lançamentos a partir do Centro de Lançamento de Alcântara”.

Nesse acordo, os EUA determinam que o Brasil não utilizará recursos obtidos em atividades de lançamento; em programas de aquisição, desenvolvimento, produção, teste, liberação ou uso de foguetes ou de sistemas de veículos aéreos não tripulados; permitindo apenas o uso desses recursos para o desenvolvimento e manutenção de portos, aeroportos, linhas férreas, sistemas de comunicações que beneficiem o CLA. Dessa forma, o objetivo inicial da comercialização não seria alcançado.

Além de outras exigências que ferem a soberania e auto-determinação do Brasil, o acordo ainda proíbe aos participantes norte-americanos de prestar aos brasileiros qualquer assistência concernente ao projeto, desenvolvimento, produção, operação, manutenção, modificação, aprimoramento, modernização ou reparo de veículos, espaçonaves e/ou equipamentos afins.

No campo militar, as Forças Armadas da América Latina estão desequipadas. Como instituição nacional, vêm sofrendo, sistematicamente, os efeitos de uma cruel, porém, bem orquestrada, publicidade de descrédito perante a nação, sob pretexto dos “direitos humanos”, com o auxílio de entidades não governamentais.

A indústria bélica da América Latina não consegue se desenvolver. A brasileira, por exemplo, que chegou a ser a sexta do mundo, foi significativamente desarticulada. Isto torna as Forças Armadas da América Latina dependentes do exterior.

Os EUA vêm atuando de forma intensa, no mercado de reequipamento militar na América Latina com o fim de garantir mercado para seus produtos de tecnologia obsoleta. Nesses contratos ainda exigem o certificado de “end user” com o fim de manter a utilização dos equipamentos adquiridos sob rígido controle.

O Brasil, em 11 de março de 1977, denunciou o acordo militar de cooperação com os EUA, o qual havia sido firmado, no Rio de Janeiro, em 15 de março de 1952. Denuncia que foi  justificada pelo Itamaraty como sendo devido à introdução de alterações na legislação americana que modificavam as condições do acordo e, pela recusa de aceitar qualquer assistência que dependesse, direta ou indiretamente, de exame, por órgão de governo estrangeiro, de matérias que, por sua natureza, são de exclusiva competência do governo brasileiro.

Porém, devido à constantes pressões, de diversas naturezas, os países, muitas vezes, se veem obrigados a submeterem-se a essas exigências hegemônicas. Em 2 de junho de 2000, o Brasil aceitou a assinatura do “Protocolo 505” com os EUA, um acordo para obtenção, pelo Brasil, de material militar usado (que carece de manutenção e suprimentos que manterão as empresas norte-americanas vendendo peças ao Brasil). A aquisição desse material está sujeita ao comentado certificado de “end user” e dá, aos EUA, o direito de realizar inspeções com o fim de verificar o seu cumprimento.

No aspecto da Segurança e Defesa, o Continente Americano, que uniu-se para a luta contra o Nazi-Fascismo e o Comunismo, volta-se agora para ameaças como terrorismo, crime-organizado e narcotráfico, as quais, decididamente não são as principais ameaças para todos os países do continente.

Há três décadas, a Colômbia tem vivido um processo crescente de guerra civil envolvendo grupos de guerrilha, como a Farc, e grupos de narcotraficantes.

Apesar dos EUA ser o maior mercado de consumo de drogas do continente, vem impelindo os governos da América Latina a responsabilizar-se pelo combate às drogas, persuadindo-os que o narcotráfico (e não o consumo) é a maior ameaça ao continente, o que justificaria o envolvimento de suas Forças Armadas nessa luta, as quais acabariam por serem readrestadas nesse sentido, perdendo a sua preparação para a sua missão principal de defesa externa.

Na XIX Conferência dos Exércitos Americanos, o Secretário de Defesa dos EUA, Richard Cheney, sugeriu que as Forças Armadas da América Latina se engajassem no combate ao narcotráfico, reduzissem os seus efetivos, limitassem seus armamentos às necessidades de autodefesa, obedecessem aos mecanismos de controle de tecnologia para a fabricação de mísseis balísticos e renunciassem a toda tecnologia para fabricação de artefatos nucleares.

Na 29a Assembléia Geral da OEA, encerrada em 9 de junho de 1999, o Delegado norte-americano propôs que “um grupo de países, vizinhos ou, simplesmente, relacionados política e economicamente, pudesse intervir em conflitos internos de outras nações”, sem a necessidade de apelar à Assembleía[3]

No mes seguinte, Bill Clinton, em entrevista coletiva, declarou que a crise colombiana era assunto de interesse de segurança nacional dos EUA[4]

A Colômbia assinou um acordo com os EUA, o Plano Colômbia, que preve ajuda financeira para o combate ao narcotráfico, além de ajuda militar, o que preocupou os demais países da América Latina.

A preocupação é natural, pois se refere à presença e intervenção militar no continente. Apesar de ser um assunto pouco comentado, alguns dizem que esta presença tem sido crescente. Segundo um artigo de Márcio Moreira Alves, jornalista brasileiro[5], Miguel Urbano Rodrigues, jornalista português, afirma em um de seus artigos, que o Secretário de Defesa para Operações Especiais, Bryan Sheridan, reconheceu que cerca de 83 “marines” dos EUA já estavam em Larandia, ao sul da Colômbia, com o fim de treinar tropas colombianas de operações especiais.

Segundo o artigo da revista Veja (ano 32, ed. 1610, 11.7.1999, pg. 52, 53), existem mais de 300 norte-americanos na Colômbia, sendo 200 militares e o restante agentes do DEA e da CIA.

Não posso deixar de recordar o objetivo da “Trilateral” e do plano de Robert Macnamara, ex Secretário de Defesa dos EUA e ex presidente do Banco Mundial, o qual foi apresentado ao FMI e ao Banco Mundial, no dia 25 de abril de 1991, defendendo a virtual extinção das Forças Armadas dos países periféricos. Mais precisamente, a redução em até dois terços dos seus efetivos com a reversão dos recursos para programas sociais e de proteção ao meio-ambiente e destinarem-se à defesa interna, ao combate ao narcotráfico e ao crime-organizado, deixando a defesa externa a cargo da ONU, que o faria com a utilização de Forças Multinacionais.

Devo acrescentar que as Forças Armadas norte americans não aceitam serem comandadas por terceiros países. De forma que uma “Força Multinacional” seria, com efeito, comandada pelos EUA.

Outro comentário que quero externar é que as “Missões de Paz”, que tão insistentemente têm sido colocadas para os países da América Latina, devem ser muito bem analisadas, tendo em vista que, talvez, não justificasse que esses países investissem na preparação de suas Forças Armadas para serem utilizadas nesse tipo de missão, uma vez que o continente americano não tem sido cenário constante de conflitos que exigissem esse tipo de aplicação militar.

O que temos visto é que essas missões, travestidas de “defesa da Democracia”, “assistência humanitária” e “restauração da esperança”, têm sido aplicadas para servir de poder de ingerência que agride a soberania de outros Estados, fomentando o ódio, o qual deveria ser eliminado, se a verdadeira intenção fosse a construção de uma paz mundial verdadeira.

Devemos avaliar se o interesse pela paz não seria, na verdade, o interesse por uma “harmonia controlada” que permitisse às nações detentoras do poder exercerem seus comércios e explorarem os mercados mundiais em beneficio de seu próprio desenvovimento.

No que se refere a meio-ambiente, precisamos ter em mente que este tema traz consigo um apelo emocional, como todos os outros temas, mas que pode estar servindo de fachada para interesses geoestratégicos.

O Interesse internacional na Amazônia é indiscutível e, o que é pior, é um processo dissimulado de ingerência que agride Soberania de outros Estados.

O interesse pela Amazônia começou no fim do século XIX, quando países europeus, tais como a França, o Reino-Unido e a Alemanha, se detiveram sobre a livre navegação dos rios amazônicos a fim de facilitar o comércio. O mesmo ocorreu com os EUA com o fim de facilitar a navegação norte-americana na área.

Henry Kissinger, em 1977, numa clara postura “neo-malthusiana”, disse que “Os países industrializados não poderão viver da maneira como existiram até hoje, se não tiverem à sua disposição os recursos naturais não renováveis do planeta.”

O Tratado de Cooperação Amazônica (Pacto Amazônico), de 1978, é uma tentativa conjunta do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Suriname, Peru e Venezuela, de defesa da Pan-Amazônia. Ele traduz a preocupação dos países amazônicos de conservação da Pan-Amazônia no sentido de repudiar qualquer intervenção dos países do centro.

O Conselho Mundial de Igrejas Cristãs, em 1981, em Genebra, teceu as seguintes “pérolas” a respeito da Amazônia :

“A Amazônia é um patrimônio da humanidade. A posse dessa imensa área pelos países mencionados é meramente circunstancial.”

“...dentre esses recursos, os mais importantes são as riquezas minerais que devem ser consideradas como reservas estratégicas das nações, a serem exploradas oportunamente.”

“É nosso dever garantir a preservação do território da Amazônia e de seus habitantes aborígenes, para o desfrute pelas grandes civilizações européias, cujas áreas naturais estejam reduzidas a um limite crítico.”

Em 1989, Mikhail Gorbachov, também construiu uma “pérola” quando disse que “O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes.”

No mesmo ano de 1989, o então senador norte-americano A. Gore mostrou suas garras e disse que “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos.”

Ainda no mesmo ano de 1989, François Mitterrand nos brinda com os seguintes dizeres : “O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia.”

A demarcação de terras indígenas na Amazônia é um assunto que há alguns anos vem sendo discutido pelos países desenvolvidos, incluindo nas discussões a criação de “Estados-Nações indígenas”. A demarcação dessas reservas indígenas são reclamadas em áreas “coincidentemente” ricas em minérios, com parques em via de implantação na faixa de fronteira. É o que ocorre com a Área Ianomani, a qual ensejaria o estabelecimento de uma “Nação Ianomani” em território do Brasil e Venezuela. Esta área, por exemplo, é riquíssima em ítrium e háfnio, minerais estratégicos, dificilmente encontrados em outras regiões do mundo.

Em 1992, por pressão internacional, com atuação significativa do governo dos EUA, o Governo do Brasil autorizou a demarcação de um território indígena dos Ianomani, de forma inconstitucional, pois não preservou a faixa de fronteira de 150 Km exigida pela constituição Federal.

Muita pressão tem sido feita para que a mineração na região amazônica seja suspensa, sob o pretexto da preservação ambiental.

Na verdade, o Continente Americano reúne a América do Norte, onde encontram-se os EUA e o Canadá, os quais pertencem ao G-7, que congrega as sete nações mais industrializadas e ricas do mundo; a América Central e Caribe, onde as nações vivem índices ainda bastante baixo de desenvolvimento; e a América do Sul, na qual localizam-se países em desenvolvimento e países chamados emergentes, como a Argentina e o Brasil.

Nota-se, no Continente Americano, uma distância enorme entre os dois primeiros e os demais no que se refere ao desenvolvimento econômico, tecnológico, militar, político e psicossocial. Chama mais a atenção os altos índices de pobreza e desemprego; as carências em saúde pública, educação e cultura. E o que é pior, a total ausência de vontade política dos mais desenvolvidos em se solidarizar com os mais carentes, levando-nos a crer, até mesmo, o contrário, ou seja, a vontade dos mais desenvolvidos em manter o “status quo” com o fim de manter o poder e o domínio.

Como disse o Cel. Oliveira, estagiário da turma do ano passado, a carta da OEA encerra-se em si prória e, talvez, esteja sendo meramente uma retórica, quando vemos seus princípios e propósitos sendo totalmente negligenciados, principalmente, pelos países mais poderosos.

O preconizado pela não aplicação de medidas coercitivas de caráter econômico ou político, para forçar a vontade soberana de outro Estado, não encontra eco nas relações dos países mais desenvolvidos com os de menor desenvolvimento.

As barreiras ao livre comércio, ao desenvolvimento tecnológico e o protecionismo têm sido totalmente incoerentes com os princípios de “desenvolvimento integral” e de erradicação da pobreza.

Os paíse da América Latina começam a perceber que estão sendo vítimas e subjugados econômica e politicamente pelos países centrais. Esse poder, que procura se manter a qualquer custo, tem sido, principalmente, sociológico, cultural, psicológico e anti-espiritual. Anti-espiritual porque vem atacando a consciência do indivíduo, seu interior, sua própria essência.

Talvez, todos os paradoxos observados reflitam que não está havendo um direcionamento ético e moral nas ações que levariam a integração das Américas. Talvez, não sejam, essas ações, uma defesa de nobres princípios, mas sim um meio de disfarçar e legitimar outras intenções, que por sua natureza, são inconfessáveis.

A OEA vive uma crise financeira resultado de dívidas não saldadas por países membros. A Junta Interamericana de Defesa (JID) vive uma crise de identidade pós Guerra-Fria, perdendo o reconhecimento da OEA. Portanto, o Sistema Interamericano, devido aos sucessivos fracassos de seus objetivos, é, nos dias atuais, um organismo desacreditado inclusive e principalmente por seus próprios membros.

Apesar de considerar que a integração do Continente Americano é um imperativo geopolítico e um caminho para o “Desenvolvimento Integral”, creio que, a nível continental, sua realização vem se mostrando praticamente impossível, tendo em vista, principalmente a diferença de interesses inconciliáveis.

No que se refere à segurança, quero começar fazendo algumas reflexões importantes. O termo Segurança tem diferentes significados para diferentes observadores. Essas diferenças se originam nas diversas abordagens dadas ao termo que, por sua vez, são conseqüência de diferentes objetivos, aceitações, definições, enfoques e metodologias.

Segurança pode significar proteção ou uma sensação de paz ou bem-estar. Implica numa atmosfera sólida, onde entidades (indivíduos ou grupos) possam perseguir seus objetivos sem interrupção ou dano e sem medo de perda ou injúria.

O principal a ser levado em conta para determinar a necessidade de Segurança não é a tipologia do evento ou do fato indesejado por si só, mas a qualidade do temor de ocorrer esse fato, do quanto esse fato é indesejável e qual o nível dessa percepção, isto é, o nível da percepção do perigo e da Ameaça.

A percepção em Segurança é importante a medida que irá influenciar conhecimentos e decisões. Sendo tão delicado como é o assunto Segurança nas atividades humanas, um mal julgamento ou uma abordagem errônea de um problema de Segurança pode ter um resultado desastroso. Ameaças e riscos podem ser super ou subestimados ou, simplesmente, negligenciados, além do que, investimentos em Segurança podem ser totalmente inadequados.

Conhecimentos incorretos e percepção enganosa, talvez, possam explicar porque um dado Sistema de Segurança tenha falhado, assim como, porque ocorreram decisões erradas. Isto merece um profundo escrutínio. Talvez, as percepções de segurança nas Américas estejam inadequadas, se considerarmos as diversas realidades de seus países.

Portanto, torna-se imperativo que se faça uma análise para que se possa determinar o que, efetivamente, tem ameaçado a integração e a segurança nas Américas.

Com este objetivo, no próximo capítulo, vou fazer uma avaliação do processo de “globalização”, com o fim de determinar como esse processo tem interagido com o continente americano e que importância ele tem para nós.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 2

 

GLOBALIZAÇÃO

 

“... A liberdade é irrealizável, porque ninguém sabe usar dela dentro da justa medida...O esforço que se exerce sob o regime da liberdade ilimitada é importante, porque vai de encontro aos esforços livres de outros. Daí nascem dolorosos conflitos morais, decepções e insucessos. Fatigaremos tanto os cristãos com essa liberdade que os obrigaremos a nos oferecerem um poder internacional, cuja disposição será tal que poderá, sem as quebrar, englobar as forças de todos os estados do mundo e formar o Governo Supremo.”[6]

 

 

A “globalização” ainda é um “fenômeno” que não é completamente compreendido.

Na verdade existem diversos pontos de vista entre os analistas. Muitos deles divergentes. Alguns defendem, fundamentados nos preceitos da Economia Clássica, o determinismo de um processo econômico que vem evoluindo e envolvendo todas as nações, sem que elas nada possam fazer para evitar, devendo apenas aceitar e adaptarem-se aos novos tempos. Outros acham que, apesar de haver um processo econômico mundial, ele é cruel, devendo as nações menos desenvolvidas procurarem soluções que permitam-nas continuarem os seus crescimentos nesse novo tempo. Outros, ainda, avaliam que esse processo econômico mundial é algo muito mais abrangente que está ocorrendo entre nações dominadoras e nações dominadas.

Para entendermos melhor, precisamos dar um mergulho mais profundo no significado de termos como mundialização, internacionalização e globalização.

De acordo com o engenheiro Darc Costa, da Escola Superior de Guerra do Brasil, a mundialização, é a interação permanente de culturas e de mercados e algo que começa, efetivamente, a acontecer, há 500 anos, com a descoberta, por Vasco da Gama, de um caminho para as Índias. Este fato dá início a mundialização e permite o que falsa e ideologicamente, hoje, se nomeia como globalização. A mundialização resulta de um projeto concebido e implementado no Portugal que transita do medievo para o Renascimento e é a culminância de um processo que envolveu o reconhecimento da África, a descoberta da América e o permanente acesso à Ásia pelos europeus. Desde então, a mundialização tem sido um processo que vem se instalando de forma crescente.

Paul Hirst e Grahame Thompson, no seu livro “Globalização em Questão”, após analisar o fenômeno das empresas Multinacionais, do comércio exterior, do fluxo de capitais e do mercado de trabalho, concluem que “...não existe um mercado mundial para o trabalho do mesmo modo que para os bens e serviços. A maior parte do mercado de trabalho continua a ser nacionalmente regulada e acessível, apenas marginalmente, para estrangeiros, sejam migrantes legais ou ilegais ou mão-de-obra profissional.” Eles, ainda, continuam afirmando que “...A suposta era da globalização não tem visto o crescimento de um novo mercado desregulamentado e internacionalizado de migração de mão-de-obra. De qualquer maneira, para os não-privilegiados e pobres há menores opções migratórias internacionais, atualmente, do que no passado. Pelo menos, no período da migração em massa, havia a opção de erradicar toda a família e mudar em busca de melhores condições, algo que parece estar se fechando, agora, para camadas equivalentes da população mundial. Elas têm uma pequena opção, a de permanecerem na pobreza e nela ficarem até o fim. O equivalente às terras desocupadas disponíveis para os europeus e outros povoadores nos Estados Unidos e Canadá, na América do Sul, na África do Sul, na Austrália e na Nova Zelândia simplesmente, hoje, não existem, com uma perda concomitante de liberdade dos pobres mundiais.”

“No entanto, as coisas parecem diferentes para os ricos e privilegiados. Aqueles, com qualificações profissionais e habilidades técnicas, ainda, têm um espaço maior de manobra e retêm a opção de se mudarem, se quiserem. Os executivos, com experiência administrativa, embora relativamente poucos numericamente em relação à população global, são a manifestação mais óbvia dessa desigualdade de oportunidades migratórias.”

Eles concluem dizendo que a economia internacional, no período pré-1914, era mais aberta do que tem sido desde aquela época.

Talvez ainda não estejamos vivendo em um Mundo Globalizado, como afirmam alguns. Entretanto, fica a pergunta: o que realmente vem ocorrendo no contexto internacional que exige tanto a nossa atenção?

Na busca de uma resposta aceitável, precisamos começar o caminho guiados pelo farol da História. Eu sei, porém, que ao tentarmos analisar a História do momento presente, ficamos sujeitos a muitos enganos, visto que a História é, excencialmente, a explicação do passado. Mas não posso me furtar a tê-la como farol de minhas análises.

Por volta do século XII, com a desintegração do Feudalismo, começa a surgir um novo sistema econômico, social e político que ficou denominado de Capitalismo, do qual as características principais foram o trabalho assalariado, a economia de mercado, as trocas monetárias, as grandes empresas e a preocupação com o lucro.

O Capitalismo surgiu com o desenvolvimento do comércio, depois das primeiras cruzadas. Foi se formando aos poucos durante o período final da Idade Média e só atingiu toda a Europa depois do século XVI.

Desde o século XII, a retomada das atividades comerciais vinha provocando o crescimento e o progresso da vida urbana na Europa. A migração para as cidades aumentou, tornando necessário o aumento da produção agrícola, para alimentar a população crescente; porém, aconteceu o contrário. Por, aproximadamente, um século, a Europa foi submetida às secas, às guerras, à diminuição da produção agrícola em decorrência da destruição das colheitas e da morte de lavradores, ao conseqüente aumento dos preços dos produtos agrícolas, à peste e a um alto índice de morte.

Depois desse período difícil, a Europa voltou a crescer, principalmente, a partir do século XV. Porém, o comércio de especiarias do Oriente, em torno do qual girava toda a atividade econômica européia, vinha apresentando sérios problemas em decorrência do empobrecimento crescente dos nobres e do monopólio do Mediterrâneo ter passado às mãos de italianos e árabes, o que aumentou os preços das especiarias. Desta forma, surgiu a necessidade de encontrar novos mercados abastecedores.

Além disso, tendo a produção agrícola tornado-se insuficiente para abastecer a população das cidades, tornou-se necessário a aquisição de novos mercados fornecedores.

Com o aumento de mão-de-obra nas cidades e a limitada capacidade de consumo local, havia necessidade de ampliar esse mercado consumidor, encontrando novos mercados fora da Europa.

A compra de especiarias desviara para o Oriente muito do dinheiro europeu. Isto aliado a falta de metais preciosos para a emissão de moeda, atrapalhava o comércio. Havia, então, a necessidade de obter metais preciosos fora da Europa.

O espírito missionário e de Cruzada de Portugal e Espanha viriam, também, ao encontro do impulso para a expansão européia.

Os burgueses desejavam um clima de paz e estabilidade que permitisse o bom andamento dos negócios. Por isso, favoreceram a centralização do governo e o fortalecimento do poder do rei, possibilitando a formação de exércitos, situação que veio a contribuir para as explorações marítimas.

Portugal, desde o século XIII, já vinha tomando uma série de medidas para estimular a expansão comercial e marítima, inclusive com o desenvolvimento da arte da construção e da navegação naval. Mas foi no século XV que ela viveu seu grande momento e começaram os grandes descobrimentos e a exploração comercial sob a forma de concessões e monopólios.

A proteção desse comércio e a manutenção do monopólio deram a Portugal, por algum tempo, a supremacia no mar e no comércio europeu. Com o crescente aumento das despesas e diminuição dos lucros, os empresários portugueses se desinteressaram em investir no Oriente, deixando todos os custos a cargo do Estado, tendo esse comércio entrado em declínio no início do século XVI e Portugal voltado-se para a exploração agrícola no Brasil.

Em decorrência dos problemas políticos e militares da Espanha com os mouros, que dominavam a Península Ibérica, dificultando a centralização política, seus descobrimentos marítimos começaram mais tarde que os de Portugal.

Enquanto os portugueses permaneceram nas costas das terras conquistadas, os espanhóis penetravam nos territórios em busca de riquezas. Descobriram metais preciosos no México e no Perú e escravizaram os astecas e incas no trabalho nas minas.

Os lucros da exploração colonial foram enormes. A descoberta dos metais deu aos espanhóis a hegemonia na Europa. A economia européia, definitivamente, deslocou-se do Mediterrâneo para o Atlântico.

Tanto a França como a Inglaterra tiveram problemas internos que atrasaram e dificultaram a sua expansão. Os maiores êxitos, no plano da colonização sistemática, viriam somente no início do século XVII.

A França, inconformada por ter chegado atrazada ao Novo Mundo, não reconhecia o direito de espanhóis e portugueses sobre esse continente. Fez sérias tentativas colonizadoras no Canadá, no sul da América do Norte, no Brasil e nas ilhas do Caribe.

Como os espanhóis concentraram suas atenções na América do Sul e Central, a América do Norte ficou livre para a exploração inglêsa que desenvolveu uma colonização ocupacional, vislumbrando que as colônias poderiam vir a converterem-se, no futuro, em importantes mercados para as manufaturas da metrópole. Como os espanhóis eram os melhores importadores da Inglaterra, sua prata e ouro acabaram indo para as mãos dos ingleses.

Paralelamente, desde os fins da Idade Média, começou o movimento que ficou conhecido como Renascimento, tendo atingido a sua plenitude entre os séculos XV e XVI.

Com o progresso das cidades e do comércio, muitos enriqueceram e adquiriram condições de custear os artistas, os quais, com a sua arte, os ajudavam a conseguir crédito e a divulgar as atividades de suas empresas. Era uma via de mão dupla.

Os príncipes, cada vez mais poderosos, desejando legalizar sua autoridade, recorriam aos humanistas que justificavam e divulgavam seus atos e suas idéias.

Sob o ponto de vista cultural, o Renascimento, profundamente individualista, estimulou o ideal nacionalista e impulsionou a centralização política. Além disso, o desenvolvimento comercial criou novas classes sociais em condições de disputar o poder político com os nobres, o que foi vantajoso para o rei, o qual, ainda, teve seu poder fortalecido pelo interesse dos comerciantes em adotar em toda a região as mesmas moedas, pesos e medidas.

Com a formação das monarquias nacionais, surgiram questões políticas onde os interesses de uma nação se chocavam com os de outra, levando a Europa a guerras internacionais. As questões internacionais foram se tornando tão freqüentes que condicionaram o surgimento da Diplomacia, a qual deu origem ao Direito Internacional.

Com as monarquias nacionais nasceu o Absolutismo que só vai se extinguir com as revoluções dos fins do século XVIII e decurso do século XIX.

Com a obtenção da produção através do trabalho assalariado e da acumulação de capitais, através do desenvolvimento do comércio, nasce uma nova doutrina, uma nova política econômica que se enquadrou na história da economia política com o nome de Mercantilismo, o qual esteve, sempre, estreitamente ligado ao processo de formação das monarquias nacionais européias. O Mercantilismo foi, inclusive, considerado como uma política econômica a serviço do Estado.

Esta política econômica se caracterizou por três elementos essenciais: balança de comércio favorável, protecionismo e monopólio. Como as colônias dependiam da metrópole, tinham de se subordinar aos princípios gerais do Mercantilismo.

Um fato, também, importante foi o “Ato de Navegação” baixado por Cromwell, em 1651, o qual permitiu que fosse estabelecida a supremacia marítima da Inglaterra.

Ao final do século XVII, o poder político na Inglaterra havia passado para as mãos da burguesia. Com o aumento da população, a indústria ganhou mais mão-de-obra e mais consumidores. Durante o século XVIII, os ingleses expandiram o seu comércio em escala mundial, conseguindo, então, acumular mais capitais, um mercado consumidor para seus produtos industriais e um mercado fornecedor de matérias-primas. A abundância de capital tornou possível o investimento na construção de máquinas. O progresso da técnica aplicada à indústria provocou, na sociedade inglesa, transformações tão profundas e revolucionárias que caracterizou o que passou a ser conhecido por Revolução Industrial.

A Revolução Industrial provocou a concentração fabril dos trabalhadores e trouxe uma radical transformação no caráter do trabalho, que foi a separação entre o capital e meios de produção de um lado, e o trabalho, de outro. Houve conseqüências sociais muito sérias, como o desemprego.

Apesar da proibição de exportação de máquinas e técnicas de produção, a Revolução Industrial, no início do século XIX, começou a propagar-se pela Europa.

Durante o século XIX, a revolução nos transportes e a aceleração no progresso da ciência acentuaram e dinamizaram, ainda mais, a indústria.

O comércio internacional provocou uma especialização mundial da produção. Enquanto os países mais avançados se especializavam na produção industrial, os países menos desenvolvidos da Europa, da Ásia e das Américas concentraram seus esforços no setor primário, fornecendo alimentos e matérias-primas para os países industrializados.

O século XVIII foi, ainda marcado por uma verdadeira revolução intelectual que ficou conhecida por Iluminismo. Os filósofos e economistas ocuparam-se dos problemas políticos, sociais e religiosos e procuravam uma maneira de aumentar a riqueza das nações. Os economistas dessa época pregavam, essencialmente, a liberdade econômica, opondo-se a toda e qualquer regulamentação. Advogavam que a economia deveria ser dirigida pela natureza, não devendo haver qualquer interferência do Estado, a não ser para garantir o livre curso da natureza.

Esses ideais políticos derivaram das idéias de Locke, expostas no “Segundo Tratado de Governo Civil”. Locke visava uma ordem social de indivíduos autônomos e independentes que seriam responsáveis por seu próprio destino e que buscassem seu próprio interesse pessoal.

Em 1765, Adam Smith, um dos mais destacados discípulos dessas idéias, escreveu o livro “A Riqueza das Nações”, onde disse, em linhas gerais, que o trabalho completamente livre, sem intervenções, guiado espontaneamente pela natureza, criaria toda a riqueza.

A hostilidade dos colonizadores americanos ao mercantilismo inglês impulsionou a América do Norte na direção do Liberalismo. Encorajados por um panfleto revolucionário entitulado “O Senso Comum”, de Thomas Paine, foram levados à Declaração da Independência, em 1776, tornando-se exemplo da primeira sociedade totalmente livre, convencida de sua qualificação de liderar o Mundo na direção da liberdade universal.

Com suas características próprias, a França marcou o início da Época Contemporânea, em 1789. Inspirada pelos ideais liberais e pela obra de Jean Jaques Rousseau, “O Contrato Social” (1762), a burguesia tomou o poder, preparando a França na direção do capitalismo industrial.

No início do século XIX, após ter sido abatido o Império Napoleônico, apareceu o Nacionalismo como uma força contra o cosmopolitismo liberal, aliando-se ao conservadorismo de Burke. Os governos que se uniram na chamada Santa Aliança tinham a intenção de reprimir os possíveis movimentos liberais revolucionários que viessem a surgir e, ainda, de abafar qualquer movimento nacional de caráter separatista e de independência.

Ao contraporem as idéias liberais ao esforço das nações emergentes por expulsar os opressores estrangeiros, isso pareceu justo aos norte-americanos. Se os indivíduos têm direitos a livre escolha, têm direito a governos nacionais. Isto veio a dar surgimento ao que ficou conhecido como Nacionalismo Liberal.

Esses ideais chegaram às colônias latino-americanas, originando movimentos contra o sistema colonial que emperrava o desenvolvimento da América Latina, levando-as a se libertarem de suas metrópoles, tornando-se países soberanos com direito à autodeterminação.

Após a Primeira Grande Guerra, a Europa entrou em um período de crise que viria a extinguir a sua hegemonia. Os Estados Unidos da América (EUA) , por outro lado se projetaram como potência mundial, assumindo a posição de hegemonia política, econômica e militar de todo o mundo, o que seria plenamente efetivado após a Segunda Guerra Mundial.

Na América Latina, os EUA substituíram a política do dólar (concessão de empréstimos a governos leais) pela política de intervenção, caracterizada no corolário Roosevelt de 1904, segundo a qual os americanos arrogavam-se o direito de intervir onde quer que os seus interesses fossem ameaçados.

Após a Segunda Guerra Mundial, a reconstrução da Europa foi rápida graças à ajuda norte-americana. Em 1948, os EUA implementaram o Plano Marshall, que permitia aos países europeus importarem produtos norte-americanos a preços baixos e, ao mesmo tempo, abriria créditos para compra de equipamentos pesados e para empréstimos destinados à reconstrução. Entretanto, com essa política, os EUA pretendiam estimular sua produção, garantir a exportação de seus excedentes e concretizar sua hegemonia econômica.

Depois das bipolaridades de Portugal-Espanha e de França-Inglaterra, o mundo adentrou na Guerra Fria sob a bipolaridade da URSS-EUA.

O século XX teve como um dos fatos mais marcantes a descolonização na Ásia e África. Porém, hoje, podemos perceber que esse processo foi apenas político. Tanto a Ásia e África como a América Latina continuam a ser colônias econômicas, exportadoras de matérias-primas e importadoras de produtos manufaturados, bem como, extremamente dependentes tanto financeiramente como tecnologicamente.

Sabemos que a contenda Leste X Oeste foi, em sua essência, uma guerra vencida pela aplicação de uma estratégia, indireta, eminentemente econômica, associada a uma acirrada disputa científica e tecnológica (a conquista do espaço e o projeto Guerra nas Estrelas), cuja finalidade principal era acelerar o desgaste e a derrocada da desequilibrada, desorganizada e frágil economia soviética e o conseqüente desmoronamento de seu regime político. Dessa forma, os EUA conseguiram, estrategicamente, desmantelar a economia da URSS e, por enquanto, reinam absolutos no contexto internacional.

Passemos a ver agora um outro importante aspecto nesse jogo de poder. Ao final do século XVIII e início do século XIX, uma ciência posteriormente batizada de Geopolítica trouxe novas reflexões sobre Estado e Poder.

Frederic Ratzel criou a teoria do “lebensraum”, ou seja, “espaço vital”, a qual reconhecia que o Estado é dotado de ambição territorial, de instinto expansionista que o impulsiona no sentido de satisfazer o seu apetite por espaço vital. Formulou as Leis de Crescimento dos Estados, afirmando que o Estado é um organismo vivo e que espaço é poder. Ratzel já dizia que é através da conquista que se impõe os frutos da civilização e que, estava no hemisfério Norte e no Ocidente, a sede dos conquistadores, sendo as demais localidades da terra, apenas, áreas de expansão.

Na esteira de Ratzel, Rudolph Kjëllen também contribuiu para uma política expansionista com seus postulados. Dizia que os Estados pequenos estavam fadados a serem empurrados para a periferia pelos Estados grandes.

Em 1930 ficou sendo conhecida a Teoria das Pan-Regiões do General Karl Haushofer. Fundamentada na auto-suficiência nacional do Estado no sentido econômico e na noção de espaço vital, dividia o mundo em quatro blocos no eixo Norte/Sul, cada bloco sendo liderado por um Estado Diretor. Esta teoria levava a uma “Nova Ordem Mundial” que implantava o neocolonialismo regido pelos Estados Diretores e anulando os demais, a princípio, economicamente; numa segunda etapa, politicamente, quando o conceito de Soberania seria abolido em nome de uma paz estável.

Jean Christophe Rufin, também, desenvolveu a sua tese de um “aphartheid” estabelecido no eixo Norte/Sul, numa verdadeira ideologia da desigualdade, colocando ao Norte os Estados Diretores e ao Sul os “novos bárbaros” aos quais o Norte deveria fechar as fronteiras a fim de evitar a migração da miséria. Segundo seus estudos, após o fim da bipolaridade, os Estados ricos do Norte não deveriam mais ajudar os pobres do Sul, devendo preocupar-se apenas com o seu desenvolvimento.

Em 1991, o francês Jacques Perruchon de Brochard elaborou a Teoria dos Blocos, a qual consistia num cenário onde o mundo, também, estaria dividido em quatro blocos, cada um deles liderado por um ou mais dos Grandes (G7), sendo os países do Sul, pobres, apenas, fornecedores de matérias-primas para a produção industrial dos países desenvolvidos e mercados para seus produtos industrializados

Um americano de nome Samuel P. Huntington, na primeira metade da década de 1990, expôs uma teoria do Choque de Civilizações. Quero apenas ressaltar aqui que na classificação das civilizações, o autor não incluiu a América Latina na “Civilização Ocidental”, deixando-a totalmente de fora.

Propositadamente, deixei para o final a Teoria da Tríade[7], um cenário elaborado pelo Clube de Roma[8], em 1968. Neste cenário, o mundo seria dividido em três blocos: o americano, o europeu e o asiático. É muito semelhante a Teoria das Pan-Regiões de Haushofer. No bloco americano, que teria como Estado Diretor os EUA, a economia dos demais integrantes seria “dolarizada” e suas Forças Armadas reduzidas e com missão constitucional alterada, de acordo com a política do líder do bloco.

Neste cenário, os três blocos ficariam diretamente sob a área de influência dos EUA,  o qual foi definido, nas palavras do presidente George Bush, em seu discurso de abertura do Congresso americano, em 1992, como “líder do bloco ocidental e, agora, líder do mundo”.

Podemos ver, portanto, os interesses geopolíticos que envolvem a realidade internacional, onde se realça o individualismo do Estado quando se trata de manter o poder.

Os teóricos da “globalização” sustentam que apenas duas forças têm importância na economia mundial, as forças do mercado global e as empresas transnacionais; e que nenhuma dessas é ou pode estar sujeita à governabilidade pública efetiva. É importante nessa análise realçar alguns aspectos importantes que envolvem essas empresas.

O desenvolvimento da manufatura, por ocasião da Revolução Industrial, constitui o precursor mais próximo da empresa multinacional da era moderna.

Apesar da dificuldade de se estabelecer uma origem para o surgimento das empresas multinacionais na economia mundial, o consenso é que as multinacionais industriais entraram em cena após meados do século XIX e se estabeleceram com a Primeira Guerra Mundial. Na década de 1920 cresceu vigorosamente as atividades de negócios internacionais, quando a corporação multinacional amadureceu, tendo, porém, sofrido um decréscimo na depressão dos anos trinta, voltando a expandir-se após 1950.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, os EUA precisavam estimular a exportação do capital que se acumulava devido à grande expansão econômica do país. Este fluxo de capitais foi incentivado pelo próprio Governo norte-americano. Paralelamente, os EUA implementaram a Lei Antitruste que dificultou a expansão das empresas dentro do país. Estes dois fatores contribuíram com a expansão internacional dessas empresas.

No chamado “Terceiro Mundo”, o anseio pelo desenvolvimento industrial criou um ambiente favorável à aceitação do capital estrangeiro como a alternativa mais indicada à obtenção de resultados mais rápidos e eficazes. O fim do colonialismo e o aparecimento de novos Estados independentes viria a completar o quadro de necessidades.

Algo que temos que estabelecer é o verdadeiro significado dos nomes, que, na verdade, são utilizados indiscriminadamente. Qual a diferença entre empresa transnacional e empresa multinacional ?

Neste sentido vou recorrer à Paul Hirst e Grahame Thompson que as classificam como sendo a corporação transnacional aquela de capital genuíno inteiramente livre, sem identificação nacional específica e com uma administração internacionalizada e, no mínimo, potencialmente inclinada a localizar-se e relocalizar-se em qualquer lugar do mundo para obter retornos mais seguros e mais altos. Ela estaria fora do alcance das regulações internacionais e nacionais. Seria, na verdade, a principal manifestação de uma economia realmente globalizada. A empresa multinacional, diferentemente, é baseada em uma localização predominantemente nacional e está sujeita a ser controlada e, até mesmo, restringida por políticas de Estados nacionais particulares.

Hirst e Thompson, em suas análises, afirmam que as empresas nacionais com um campo de operação internacional são mais prováveis que as corporações transnacionais. Que as multinacionais ainda contam com suas “bases de origem” como centro de suas atividades econômicas. Estão muito confinadas, em termos de suas atividades empresariais como um todo, em seu território de origem; elas permanecem fortemente “nacionalmente enraizadas”, o que significa que não estão fora do poder desses governos nacionais de origem as regularem. As empresas internacionais, portanto, são predominantemente multinacionais e não transnacionais.

Dentre as maiores empresas do mundo, estão as norte-americanas, japonesas e alemães, sendo que 2/3 delas são norte-americanas. São quase todas multinacionais, pois não perderam sua características nacionais. O desenvolvimento da tecnologia e pesquisa dessas empresas têm sido realizadas através de uma estratégia comum e deliberada de privilegiar os países centrais e suas localizações de origem. O domínio da tecnologia é visto como a garantia do comando do negócio e encontra-se, portanto, sempre junto, fisicamente, das administrações centrais dessas empresas nos seus países de origem.

Não se pode negar que já emergiu a potencialidade da influência de empresas transnacionais no enfraquecimento da conduta de uma política econômica independente, pelos governos nacionais; porém, evidências confirmam a escassez de empresas genuinamente transnacionais.

As empresas multinacionais, exercem uma autonomia verdadeiramente grande num contexto que era prerrogativa dos Estados. É fato a sua influência e poder junto aos Estados, particularmente, naqueles em que a economia é ainda incipiente e necessita de capital e tecnologia. Muitas vezes ela passa a ser a única responsável pelo desenvolvimento econômico de uma nação que dela fica totalmente dependente.

Não nos importa nesse trabalho considerar as vantagens e desvantagens da instalação de uma subsidiária estrangeira num país em desenvolvimento. Quero apenas ressaltar o fato de que o forte poder econômico que essas empresas representam influencia o poder político de uma nação, por vezes, ameaçando sua própria Soberania. E ressaltar, ainda, que os Estados não serão mais inteiramente donos de seu comércio, que passa a ser direcionado, não para atender aos interesses da nação, mas, para satisfazer os propósitos da empresa, cujo controle decisório permanece na matriz, ou seja, num país estrangeiro e, muitas vezes, com fortes ligações com os interesses do próprio Estado deste país.

Um outro aspecto das multinacionais, de elevada importância para este trabalho é o fato de que hoje muitas dessas empresa dispõem de setores de Inteligência agregados aos seus departamentos de planejamento estratégico. Essas entidades necessitam de conhecimento para explorar o mercado consumidor onde se instalam, para ter vantagens no jogo competitivo, para sobrepujar os interesses nacionais em proveito de seus próprios interesses e, muitas vezes, em proveito dos interesses do Estado sede de sua matriz.

Já, em 1980, Willian Colby, ex-chefe da CIA, atestou que as empresas multinacionais dos EUA iriam criar serviços próprios de Inteligência com o fim de gerar conhecimentos que facilitassem as decisões e que ajudassem a compreender os problemas econômicos e de instabilidade política mundiais.

Em 1982, o jornal The New York Times publicou que as atividades dos serviços de Inteligência dos EUA estavam sendo conduzidas, cada vez mais, sob a fachada de organizações comerciais privadas, algumas até fictícias, em lugar de missões diplomáticas.

Em 1984, o principal executivo da Mc Donnell Douglas, em Saint Louis, Missouri, soicitou que cada departamento principal da companhia criasse um órgão de Inteligência com o fim de produzir conhecimentos sobre o ambiente geral de trabalho na empresa, as necessidades dos clientes e as atividades dos concorrentes.

Serviços de Inteligência dos países ricos produzem conhecimentos que repassam às suas empresas com o fim de fortalecê-las, fortalecendo, assim, suas próprias economias. Serviços de Inteligência de multinacionais obtêm conhecimentos que são repassados aos Governos de seus países de origem, numa via de mão dupla.

O Governo francês, por exemplo, trabalha muito cerrado com suas grandes corporações multinacionais para obter informações em outros países.

O próprio FBI declara que cerca de 150 companhias nos EUA são realmente de propriedade chinesa, muitas das quais envolvidas em negócios de exportação/importação entre os dois países e, além disso, são utilizadas na obtenção de informações econômicas.

A lista de fatos, como esses, é enorme, por isso vou me deter por aqui, pois entendo já ser o suficiente para nos convencer dos interesses que realmente estão por traz de uma economia globalizada.

Após a Segunda Guerra Mundial, o fenômeno da descolonização libertou politicamente as nações, as quais transformaram-se em Estados soberanos. Porém, em seguida, estes Estados se viram diante de uma discriminação econômica e tecnológica que voltou a colocá-los em uma condição de colônias, no que se refere ao grau de dependência internacional. É fato que não se adquire autonomia política sem autonomia econômica e vice-versa. Isto dividiu o mundo em países ricos e países pobres, países independentes e países dependentes.

Alguns analistas entendem que essa situação foi provocada pelo fato das antigas metrópoles terem impedido, durante o período da colonização, que suas colônias tivessem acesso à tecnologia e ao ambiente necessário para o desenvolvimento do conhecimento.

Essa situação vem se perpetuando, chegando aos dias atuais a níveis de maior gravidade para os países em desenvolvimento, os quais tornam-se, cada vez mais, dependentes tecnologicamente e mais atados a acordos internacionais que os impedem o desenvolvimento na área de Ciência & Tecnologia.

A Tecnologia, ela própria, emergiu como um bem econômico, estabelecendo o surgimento do mercado da “transferência de tecnologia”, com todas as implicações econômicas e comerciais decorrentes, em virtude do alto custo de produção envolvido pela área de Pesquisa & Desenvolvimento e pela alta demanda do mercado.

A Tecnologia, dentre outras, tem a característica da independência, à medida em que o desenvolvimento de uma permite o desenvolvimento de outras; é dotada, por isso, da capacidade de crescimento exponencial, o que provoca, de certa maneira, o aumento constante da distância existente entre os países que a detenham e aqueles que se mantêm na dependência dos primeiros.

As nações detentoras de tecnologia, sabedoras que o que define as relações internacionais é o “jogo do poder”, perceberam, num determinado momento da História, que a Tecnologia possui um elevado valor estratégico, sendo um fator fundamental para o Desenvolvimento, a Soberania e a Segurança Nacional. Já na década de 40, o General alemão Heinz Guderian, criador da “Blitzkrieg”, a “Guerra Relâmpago”, declarou : “O Alexandre moderno deve dobrar a tecnologia a seus desejos e transmiti-la a seus soldados.”

Em 1952, Laurenti Béria, Chefe do Serviço de Inteligência soviético, disse : “As informações tecnológicas se tornaram essenciais para a nossa defesa e nossa economia...”

Surge, então, o que podemos chamar de “tecnologia sensível”, para a qual proponho o seguinte conceito:

É aquela que, por sua natureza, requeira restrições na sua divulgação, uma vez que o seu conhecimento por entidade não autorizada pode significar a perda do privilégio de se alcançar níveis mais elevados de conhecimento, os quais reflitam um avanço perante concorrentes ou adversários; ou que, a curto ou médio prazo, de modo preponderante, aumente a potencial ameaça política, econômica ou militar, aumentando o temor pelos resultados de sua divulgação.

Os EUA possuem um sistema de controle de exportação que, dentre outras coisas, visa impedir o acesso dos países emergentes à tecnologia de ponta, com a meta ostensiva de impedí-los de obter a independência no desenvolvimento de armas nucleares e mísseis estratégicos de longo alcance. Porém, com o objetivo dissimulado de impedir a esses países capacitação competitiva de mercado e desenvolvimento.

De fundamental importância nesse contexto é que dele emerge o seguinte cenário: As nações desenvolvidas irão implementar medidas de controle que permitam impedir o acesso de outras nações ao conhecimento tecnológico, ou seja, vão restringir e controlar o mercado de “transferência de tecnologia” e vão interferir na capacidade de pesquisa & desenvolvimento dessas nações; as quais, numa manifestação de inconformismo, se lançarão em defesa de seus direitos, aumentando, ainda mais, a instabilidade na garantia da integração e da paz.

É preciso entender bem a “globalização” pois a defesa da idéia de uma sociedade internacional é um dos recursos empregados pelas nações e grupos hegemônicos, pela percepção da necessidade da criação de relações internacionais que facilitem, ou conduzam a realização dos seus objetivos nacionais. Pretendem eles, estrategicamente, universalizar a crença de que a “globalização” é inevitável no relacionamento internacional. É a Teoria do Fatalismo : que o processo econômico de “globalização” é irreversível, nada poderá detê-lo, ou diminuir a sua abrangência e nada pode ser feito, pelos países periféricos, para evitar, ou mesmo diminuir os seus efeitos colaterais indesejáveis como, por exemplo, a tendência de substituir a adoção de conceitos de Soberania pelo de soberania relativa, de autodeterminação pelo de direito e dever de ingerência; fazer crer que o único sistema econômico que, realmente, pode libertar os países em desenvolvimento da pobreza e da miséria é o neoliberalismo; para isso usam palavras como competitividade, como se fosse possível haver competitividade entre realidades socio-econômicas tão diferentes quanto as existentes entre as nações centrais e as da periferia, quer pelo porte e diversificação de seus aparelhos produtivos, quer pelo cerceamento científico e tecnológico imposto pelos países do núcleo central aos países periféricos, quer, ainda, pelas diferenças culturais existentes entre a maioria dos países.

Nas palavras de Darc Costa, a “globalização” é a busca do predomínio de uns em detrimento de outros. É uma tentativa de conquistar o domínio dos mercados e das idéias,.

Já na década de 70, como resultado da posição “neo-malthusiana”, consagrada no Clube de Roma, em 1968, cristalizou-se, nos países desenvolvidos, a idéia que não era possível dar à população mundial o padrão de vida dos habitantes dos países ricos, já que o planeta Terra possuía recursos limitados. Assim sendo, os países ricos não só deveriam buscar retirar o tema “desenvolvimento” dos fóruns internacionais, como, também, procurar derrubar as fronteiras dos estados nacionais, modificando o conceito de Soberania para melhor exercer o controle sobre os recursos naturais do planeta. A “globalização”, em época mais recente, conspira contra a ideologia do Desenvolvimento Nacional. O que realmente querem os arautos da “globalização” é o estabelecimento de novas colônias que garanta o sucesso de uns e o insucesso perene de outros.

A idéia de internacionalismo, seja ele econômico, político ou cultural, é mero discurso, pois a prática mostra um outro lado. A História Universal nos mostra que todos os povos, quando chegavam ao auge de sua civilização, buscavam a “globalização”, que surgia quando as civilizações, em seu apogeu, procuravam a expansão. Isto ocorreu com os gregos, com os persas, com os romanos, com os árabes, com os ibéricos, com os ingleses, e, agora, com os norte-americanos. Todos buscavam estratificar o exercício do poder e não ter resistências ao atendimento de suas necessidades.

Desde de sua independência, os EUA formularam uma concepção estratégica ampla. Essa concepção visava o domínio da massa territorial norte do hemisfério ocidental, ou seja, da América do Norte; visava não permitir que um país ou coligação de países do hemisfério ocidental ameaçasse seu predomínio nesse continente; não permitir que um país conquistasse a supremacia absoluta na Eurásia; e ter o controle do tráfego marítimo no Atlântico Norte e no Pacífico. Ao lado dessa concepção, o Estado Nacional Americano tem procurado dotar a sociedade americana de vontade nacional, utilizando-se da propaganda e dos novos meios de comunicação, com o fim de incutir valores que pela heterogeneidade étnica, racial e religiosa, jamais emergeriam naturalmente. Ao término da Segunda Guerra Mundial, os EUA atingiram seus objetivos e se estabeleceram no centro. Hoje, juntam-se a eles o Japão e a Alemanha, todos dotados de concepção estratégica, todos dotados de vontade nacional, todos adeptos do intervencionismo e do nacionalismo econômico. A economia para eles sempre foi vista como uma ferramenta a ser utilizada pelo Estado na busca de uma concepção estratégica, ou como um elemento primordial para a formulação de sua política. Nunca foram liberais. O liberalismo econômico que agora praticam coaduna-se perfeitamente com os postulados desta doutrina, como o economista List já escrevia no seu livro “Sistema Nacional de Economia”, no século XIX : “A História ensina que as nações...podem e devem modificar seus sistemas de acordo com o estágio de seu próprio progresso : no primeiro estágio, adotando o comércio com nações mais adiantadas como meio de saírem do estado de barbárie; no segundo, promovendo o crescimento das indústrias, pesca, navegação, adotando restrições ao comércio; e no último, após atingir o mais alto grau de riqueza e poder, retornando ao princípio de comércio livre...de maneira a que seus comerciantes e industriais possam ser preservados da benevolência e estimulados a conservar a supremacia que adquiriram.”

Fica claro, portanto, que a doutrina do nacionalismo econômico prega que, uma vez atingido o centro, deve-se ser liberal. Hoje, porém, estamos diante de um centro compartilhado trilateralmente. Podemos observar que o equilíbrio de forças estratégicas do núcleo central - constituído pelos EUA, pelo Japão, pela Alemanha e, mais modestamente, pelos outros países do G-7 – é bastante instável. Nem todos os países do núcleo estão no centro do poder, existe uma hierarquia entre eles.

Já, em 1973, a Comissão Trilateral[9] classificou os países nas seguintes categorias e áreas de influência :

 

ð                   categoria central – EUA, Europa Ocidental e Japão;

ð                   categoria periférica – os demais;

ð                   área de influência dos EUA – Américas;

ð                   área de influência da Europa – África; e

ð                   área de influência do Japão – Oriente Asiático.

 

Seus objetivos eram : a manutenção da hegemonia econômica, militar, política e social dos EUA no mundo ocidental; a imposição de um sistema de divisão de trabalho aos países periféricos, onde lhes caberia o fornecimento de produtos agrícolas, matérias-primas e mão-de-obra; a garantia do fluxo de matérias-primas e insumos energéticos para os países centrais; o desenvolvimento de ações para que, no futuro, as fontes de energia do planeta passem ao controle exclusivo dos países centrais; impedir que os países periféricos venham a dominar o ciclo completo de geração de energia nuclear, utilizando, para isso, o argumento da não proliferação de armas atômicas; manter algumas áreas de ocorrência de matérias-primas e de minerais sob o controle internacional, visando uma futura explotação, em seu benefício; estrangular economicamente os países periféricos que não aceitem a divisão de trabalho estabelecida; intervir militarmente onde houver uma grave ameaça aos interesses dos países centrais; substituir as Forças Armadas dos países periféricos por uma Força Armada Regional, cabendo às primeiras, meramente, a Segurança Pública e à segunda a Segurança Externa desses países.

Após a idealização do Programa Guerra nas Estrelas, os EUA priorizaram o que convencionaram chamar de “Conflitos de Intensidade Média”. Essa prioridade é estabelecida seguindo o conceito de que alguns países emergentes, que já são potências regionais, como o Iraque, o Paquistão, a Índia, a China e o Brasil são, potencialmente, as novas ameaças aos interesses norte-americanos.

A “globalização” também busca, como estratégia de dominação, a garantia de existência nos países periféricos de mercados consumidores para os produtos dos países centrais, além de impor uma colonização cultural, substituindo a cultura nacional pela cultura norte-americana.

O Jornal Correio Brasiliense, de 6 de junho de 1999, publicou uma entrevista com John Gray – pensador inglês e inspirador do modelo econômico de Margareth Tatcher – onde, fazendo comentários sobre o seu livro “Falso Amanhecer”, declara o seguinte : “...e os diferentes tipos de capitalismo não podem ser exportados de seus países de origem. Por isso, acreditar que o conceito de livre mercado anglo-saxão é um modelo universal é tão absurdo como pensar que o capitalismo alemão ou japonês podem atender às necessidades de todo o mundo....A tentativa de implantação de livre mercado em todo o mundo e a americanização vai produzir crise e caos. A possibilidade é uma fantasia....

“A idéia de que a expansão mundial do livre mercado é inevitável é tão ilusória quanto a crença dos marxistas, nos anos 30, de que o comunismo triunfaria em todo o mundo....A atual predominância do capitalismo norte-americano será suplantada por outra forma de capitalismo.”

Portanto, na tentativa de emitir um conceito, recorro ao Cel. Av. Jorge Calvário dos Santos, da Escola Superior de Guerra do Brasil, que conceitua “globalização” como : “O processo que busca o controle dos mercados, o monopólio de tecnologias avançadas e a uniformalização do pensamento, de modo a conduzir o relacionamento internacional, em todas as suas dimensões, para a implantação de um mundo só, sob controle de poucos, para o benefício desses poucos. Nesse processo, as idéias são direcionadas para conduzir o pensamento, conquistar mentes e corações de modo a formar o ser universal unidimensional. Para concretizar esses objetivos são impostos constrangimentos e um eficaz e permanente processo de interferência cultural.”

A “globalização” é uma estratégia de dominação.

Se analisarmos as conseqüências que isto tem trazido para os países da América Latina e, até mesmo, da América do Norte (não podemos esquecer que o poder exige seu preço), podemos sentir que as nossas percepções estão envolvidas numa névoa que nos impede a visão clara.

Por exemplo, no Brasil, a História nos mostra que o Liberalismo atrasou a industrialização por cem anos. A Abertura dos Portos e o Tratado de Aliança e Progresso, em 1808, cortaram os projetos de industrialização almejados por D. João VI. Naquela época a industrialização era um óbice aos interesses industriais e comerciais ingleses, já em plena expansão e em busca do domínio dos mercados para seus produtos industrializados.

A exclusão do Brasil da Primeira Revolução Industrial foi conseqüência natural do Tratado de Methuen e da Abertura dos Portos. Em meados do século XVIII, o Brasil, em Minas Gerais, iniciou uma próspera fabricação de tecidos. O comércio inglês ressentiu-se com o desenvolvimento industrial brasileiro. A Inglaterra passou a exercer fortes pressões e ameaças, obrigando Portugal a assinar o alvará de 5 de janeiro de 1785, que, sob ameaças de graves penas, determinava a destruição de todas as fábricas, manufaturas, teares e fusos existentes no Brasil. O alvará, assinado por D. Maria I, de inspiração inglesa, fez com que nossa incipiente industrialização fosse destruída.

Pelo Tratado de Methuen, as manufaturas de lã produzidas pela Inglaterra tinham acesso ao mercado português em condições bastante favoráveis. Algumas décadas mais tarde, os governantes portugueses se deram conta de que a ausência de uma indústria manufatureira no reino português obrigava a que a riqueza gerada no Brasil terminasse por ser transferida à Inglaterra, ao invés de se fixar em Portugal. Esse processo beneficiava e fortalecia a indústria inglesa.

O Decreto de Abertura dos Portos e o Tratado de Liberdade para as indústrias de 1810, que se seguiu, transferia à Inglaterra o controle do nosso mercado interno como conseqüência do controle do mercado externo por ela exercido. À Inglaterra não interessava que o Brasil viesse a se industrializar. Como estamos vendo, o processo que hoje vivemos já vem de quase três séculos.

Um trabalho produzido pela Organização RAND[10], em 1993, com a intenção de assessorar os analistas e planejadores da política de não proliferação de mísseis dos EUA, comenta o que passo a transcrever, por ser de extrema importância para o entendimento do tema desenvolvido por este trabalho :

-                       “A seqüência estratégica (programa espacial primeiro e desenvolvimento de mísseis balísticos após) é a melhor tática. Se um país insistir no desenvolvimento simultâneo, os membros do MTCR (Regime de Controle  de Tecnologia de Mísseis), podem parar com a transferência de tecnologia para o programa espacial. Por outro lado, se um país insistir no desenvolvimento de lançadores espaciais, a despeito das perspectivas econômicas, os países provedores de lançadores orbitais não devem arriscar suas oportunidades econômicas, negando as solicitações de assistência tecnológica; (grifo meu).

-                       “O MTCR também já colocou impecilhos para o Brasil concertar certos componentes dos Sonda em outros países, tais como o “sistema inercial digital miniaturizado de altitude” e, na compra das cintas de separação de estágios para foguetes. Com estas – outras – dificuldades técnicas e financeiras, uma redução ou mesmo o cancelamento dos programas VLS e de mísseis balísticos é uma distinta possibilidade..(grifo meu).

-                       “O MTCR quer, simultaneamente, “evitar novos programas espaciais”e “impedir uma contribuição para sistemas de lançamento de armas nucleares”. Mas, os membros têm diferentes pontos de vista a este respeito. Por exemplo, um grupo de empresas da França, Alemanha, Bélgica e Suécia concordaram em vender ao Brasil um motor de combustível líquido e outras tecnologias para o desenvolvimento da capacidade de lançamentos espaciais. Ou o tratado Brasil-China de cooperação espacial. Ironicamente, quanto mais efetivas forem as medidas do MTCR, mais persistentes serão as pressões que o Brasil colocará para receber assistência, porque a atividade espacial permanecerá como única cobertura restante para obter tecnologia de ponta para programas militares. Por outro lado, se os países já integrantes do “Clube” continuarem a juntar forças em não fornecer assistência técnica e financeira, poderemos atrasar significativamente o programa espacial brasileiro e mesmo forçar um reestudo de situação e desativá-lo completamente; (grifo meu)

-                       “O MTCR já tem causado atrasos no Programa Espacial Brasileiro, ao impedir a aquisição de componentes necessários. Os brasileiros clamam que a impossibilidade de finalizar o VLS, antes de 1992, foi devida a esse fato. Sem assistência técnica, o programa pode ser atrasado novamente ou mesmo cancelado. E, sem exportações de mísseis para repor parte dos investimentos, o Brasil poderá mesmo ser forçado a terminar com seus programas espacial e de mísseis. Pressões por parte dos demais membros do MTCR podem assegurar isso. Em qualquer caso, se negarmos ajuda técnica, ao menos poderemos causar uma menor acurácia nos CBM e ICBM brasileiros e também torná-los menos confiáveis.” (grifo meu)

A teoria de redução de efetivos militares, como tem sido proposta para os países da America Latina, tem sido aplicada nos próprios EUA porém, num processo de substituição do homem pela tecnologia de ponta, buscando maior eficácia e eficiência. Processo esse que não tem possibilidade de ser aplicado nos países latino americanos. Além disso, temos visto um crescente aumento de poder da OTAN, uma busca pela contituição de uma Força Militar para a União Européia; o aumento de destinação orçamentária para as Forças Armadas do Japão; e a Alemanha que, após um longo período de retraimento, já tem a liberdade de enviar tropas para o exterior em missões de paz.

Desenvolve-se o conceito de “Segurança Cooperativa”, esposado pelos países desenvolvidos e, nas Américas, principalmente pelos EUA e Canadá. A sua adoção transforma as Força Armadas dos países em desenvolvimento em milícias de defesa interna, criando melhores condições para intervenções externas “quando necessárias”.

Dentro dessa ótica, surgiu a idéia de criação de “Forças Multinacionais Permanentes” capazes de atuar em operações de paz. Devemos lembrar que é difundido que a estabilidade democrática é essencial para a convivência, a cooperação e a paz no mundo entre os países. Entretanto, essa idéia vem justificando diversas intervenções que começam pela via diplomática e chegam a formas mais duras como as operações denominadas de “imposição da paz”.

As operações de paz passaram a ser utilizadas pela ONU, como instrumento de atuação no campo de manutenção da paz e segurança internacional. Essas operações visariam substituir o uso da força por meios pacíficos de atuação, com o consentimento de todas as partes envolvidas. Entretanto, temos sido testemunhas de operações levadas a efeito principalmente pelos EUA, as quais, negligenciando ou contrariando o Conselho de Segurança da ONU, interveem pela força em qualquer lugar do mundo onde os interesses norte-americanos possam estar sendo ameaçados.

Na Grécia antiga, os estrangeiros eram considerados “bárbaros”, sinônimo de inculto e selvagem. Para os romanos, “bárbaros” também eram aqueles que estavam fora do alcance da Lei e da Ordem das Cidades.

Continuam, hoje, sendo “bárbaros” aqueles que podem ameaçar o “status quo” dos países do centro, os quais ocupam a posição de domínio.

O controle de imigração ilegal tem sido um tema de crescente discusão nos dias de hoje. Primeiro, porque aumenta a imigração de grupos que fogem da pobreza e das perseguições políticas, em direção aos países desenvolvidos onde talvez possam encontrar oportunidades de melhoria de qualidade de vida. Segundo, porque aos países desenvolvidos interessa controlar o fluxo da mão-de-obra competitiva, a qual pretendem deixar para sua população, utilizando-se da mão-de-obra não especializada no preenchimento dos serviços “menos nobres” e impedindo que a imigração alcance níveis além daqueles aceitos para alcançar esses objetivo. Para eles é necessário manter os “bárbaros” fora de seus muros para que não ameaçem sua estabilidade e poder.

O processo de “globalização” apresenta-se com aparência civilizadora, humanista, com os melhores propósitos para a humanidade. Entretanto, a História é testemunha da Pax Romana, civilizando o mundo em função de seus interesses, tal qual vem fazendo a “Pax Americana”, tendo como instrumento a cultura científica anglo-saxônica.

A “globalização” impõe a uniformalização do pensamento e das idéias e a ausência do contraditório, pois pretende ser, por si mesma, o ideal para o homem e para a humanidade. Com este discurso, o qual, como sempre, é muito diferente da prática, torna-se a antítese da Democracia que tanto apregoa.

Os bloqueios econômicos e políticos e as ações militares para aplicação do dever de ingerência, travestidas de “razões humanitárias”, “proteção do meio-ambiente” e “fortalecimento da democracia”, têm levado a guerra e ao ódio. Ódio que traz a ameaça contra a qual eles se mantém lutando; porque acreditam nas palavras de Tibério: “Os poderosos devem saber que em sua sombra cresce, inevitavelmente, mais perigo que inveja.

Um ciclo interminável de luta pela manutenção do poder que leva sempre à infelicidade de todos sem jamais trazer a paz entre os povos. Como todos nós sabemos, ao fim do Império Romano, os bárbaros se transformaram em novos centros de poder e designaram bárbaros os outros povos, enquanto elevavam sua língua e seus valores como características de civilização.

Ao considerarmos Segurança e Desenvolvimento, precisamos aceitar que um não existe sem o outro e que devem se aperfeiçoar em conjunto. Devemos também aceitar que Desenvolvimento não pode se referir apenas a uma expressão do poder nacional e sim a todas simultâneamente.

Desta forma, considero ser a “globalização(como estratégia de dominação) muito mais uma ameaça com a qual tem de se defrontar o continente americano, do que um fenômeno da economia mundial.

Por outro lado, buscando uma percepção mais eficás, vejo a “globalização como o resultado da imperfeição do homem em desenvolvimento, a qual, por sua vez, vejo como causa primeira dos desequilíbrios que temos que corrigir.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 3

 

A CULTURA PÓS-MODERNA

 

“Todos os homens buscam a felicidade. E não há exceção. Independentemente dos diversos meios que empregam, o fim é o mesmo. O que leva um homem a lançar-se à guerra e outros a evitá-la é o mesmo desejo, embora revestido de visões diferentes. O desejo só dá o último passo com este fim. É isto que motiva as ações de todos os homens, mesmo dos que tiram a própria vida”[11].

 

 

O homem é, então, a chave de todo um processo cultural que se impõe à humanidade, a qual vive um período histórico extremamente incerto quanto ao seu futuro, devido ao domínio da ciência e tecnologia e à influência de transformações, incrivelmente velozes; sejam materiais, sociais ou psicológicas. Impõe-se, desta forma, a necessidade de compreendermos o homem, para que se possa buscar uma forma positiva de interferir, no sentido de que ele possa ter mais oportunidades de buscar a verdadeira felicidade e realização.

Vou começar fazendo um retrospecto rápido da evolução do pensamento humano quanto às suas crenças, convicções e valores.

A História da Humanidade tem sido escrita pelas tentativas que o Homem tem feito para compreender sua verdadeira natureza; pelas tentativas de compreender o Universo e a vida. Tudo isto com o objetivo de se capacitar a alcançar estados conhecidos como de paz, de harmonia, de estabilidade, de felicidade; e, com isso, sentir que consegue se realizar plenamente.

As origens dessas angústias e reflexões se perdem no tempo. Com o advento da Filosofia, essas reflexões começaram a ter uma estrutura mais visível.

A cerca de 2.500 anos, os filósofos sofistas criaram a primeira noção de humanismo, na qual os homens eram a medida de todas as coisas, de todo o bem e de todo o mal.

Embora na mesma linha antropocêntrica sofista, Sócrates, conhecido pela famosa máxima “conhece-te a ti mesmo”, criou uma nova concepção de alma, desvinculando o Homem da natureza. Explicou a alma como sede da consciência e do caráter e acreditava que a razão humana era o caminho para o conhecimento, marcando, profundamente, com essa concepção racionalista-humanista, a tradição da cultura ocidental.

Ao contrário de Sócrates, seu discípulo Platão demonstrou que a realidade dividia-se em duas partes: a sensorial, a qual incluía tudo o que obtemos através de nossos sentidos físicos, sendo, por isso, subjetiva e imperfeita; e a do mundo das idéias (à qual deu mais importância), o qual só poderia ser conhecido através da razão e o qual era eterno e imutável.

Aristóteles, aluno de Platão, por outro lado, interessou-se mais pelo mundo das coisas sujeitas a mudanças com o tempo. Buscou explicar a natureza usando a razão e seus sentidos, começando, assim, a sistematizar uma linguagem técnica para as ciências naturais. Ele acreditava que nada existia na consciência humana que não tivesse passado antes pelos sentidos e que os conceitos eram produto da razão interpretativa dos fatos percebidos. Desta forma, ele criou a lógica como ciência abstrata.

Ao chegarmos à Idade-Média, encontramos um período histórico que focou sua crença em que o divino era a base de todo o pensamento. Entretanto, o Renascimento - que nasceu com a retomada do pensamento científico, da valorização do Homem, da arte e da cultura da Antiguidade - provocou o. retorno ao humanismo.

Assim como os filósofos gregos procuraram se libertar das “crendices e mitos” de sua época. Os renascentistas, também, introduziram um novo conceito de humanismo, o qual era resultado de uma libertação do despotismo dos senhores de terra e da Igreja.

Abandonando as questões relogiosas, o humanismo renascentista exaltou o individualismo e levou a sociedade a divorciar-se dos valores e conceitos espirituais, criando a idéia de um homem que não deveria existir apenas para servir à Deus, mas, antes de tudo, servir a si mesmo. Um homem egoísta e voltado para a satisfação apenas dos valores materiais.

Nessa direção, o Renascimento estabeleceu as bases do conhecimento científico moderno, preparando o terreno para que Francis Bacon estabelecesse as bases metodológicas da ciência experimental moderna, com a concepção que somente a experimentação poderia validar os conhecimentos adquiridos.

René Descartes veio, então, associar a essa metodologia o modeleo de conhecimento legítimo a partir de idéias claras e distintas, capazes de através da evidência da prova racional atingir a verdade eterna e absoluta.

Com essas bases, esses dois filósofos viriam a influenciar, no século XVIII, o movimento do Iluminismo, o qual trouxe a expectativa de que a ciência, o método experimental e a prova racional poderiam resolver todos os problemas da humanidade, iluminando as sombras não só no campo das ciências como no campo político e social, que conduziria ao ideal de igualdade e liberdade entre os homens.

O racionalismo, dessa forma, considerou o pensamento humanístico das artes como parte de um conhecimento imperfeito que deveria ser corrigido e superado. Alijou da posição de excelência que ocupava no cenário do pensamento humano, a Filosofia, a História, as artes e as ciências sociais. Os pensadores dessa época aderiram à “crença irrefutável” de que a tarefa do homem consistia em entender as leis da natureza para poder dominá-las e usá-las em seu próprio benefício. Surgem, então, no setor político, os déspotas esclarecidos que acreditavam que deveriam conduzir suas nações segundo os princípios do racionalismo.

Isac Newton, com a teoria da Gravitação Universal, a qual subordinava tudo às imutáveis leis da mecânica, adensou esse racionalismo. Estava enraizada, profundamente, a estrutura do pensamento humano, na qual viria a se erigir uma civilização tecnologicamente próspera e profundamente infeliz

Vimos, portanto, que as escalas de valores da sociedade vieram mudando continuamente do coletivo para o individual; do espiritual para o material. Existe hoje uma negligência com a verdade em nome de valores puramente materiais.

Esta sociedade pós-industrial, que desenvolveu a chamada “cultura pós-moderna”, ancora seus valores numa excessiva preocupação com o corpo físico; no prazer material; na tecnologia; e no consumismo indiscriminado.

Neste contexto, desaparece totalmente a destinação e a responsabilidade social em todas as instituições públicas e privadas, sejam elas econômico-financeiras, comerciais, de comunicação (mídia), religiosas ou políticas. Os interesses individuais e materiais se sobrepõem a qualquer outro.

Façamos uma análise dos aspectos de maior relevância envolvidos por essa triste realidade.

A falta de humanidade dos sistemas econômico-financeiros, comerciais e empresariais se mede pelo crescente “aperfeiçoamento” destas áreas fundamentado nos conceitos estratégicos de Clausewitz e Sun Tzu com o fim de adquirir a excelência competitiva, eficácia e eficiência, em detrimento de qualquer vocação social. Uma verdadeira “guerra econômica”, onde impera o lucro e os ganhos materiais.

O sistema capitalista, que impera nas sociedades de hoje, classifica o homem, simplesmente, como um dos fatores da produção, o qual só é reconhecido e valorizado quando é capaz de gerar ganhos. Os índices e parâmetros da Economia voltam-se apenas para a produção e, simplesmente, desconsideram a distribuição. Atividades não lucrativas, como as de donas-de-casa, dos trabalhadores voluntários para assistência humanitária e social, etc, não pesam nas avaliações econômicas.

Para o setor comercial, o qual se utiliza do poder da propaganda através da mídia, o que importa é o estabelecimento de mercados onde se possa despejar a produção, aumentando o consumo, gerando lucro e trazendo, nesta esteira, o que se conhece por “expectativas crescentes”, as quais, na verdade, no lugar de criar oportunidades para as satisfações humanas, aumentam as frustrações e a infelicidade e não diminuem a pobreza e a miséria.

O desenvolvimento econômico assume a posição de ser a panacéia para os problemas da humanidade. As satisfações das necessidades materiais são consideradas como aquelas que levarão o Homem à sua auto-realização. Porém, se esquecem, os que acreditam nessa falácia, que o desenvolvimento econômico tem que acontecer simultaneamente ao desenvolvimento de todos os outros campos do Poder. O desenvolvimento, seja de uma forma ou de outra, por sua vez, só é possível se for resultado do desenvolvimento intrínseco do homem, do seu aperfeiçoamento como ser transcendente.

A atividade política dessa sociedade está alicersada na igualdade e na liberdade, porém, não consegue conduzir a sociedade para alcançar o Bem-Comum. Mesmo a Democracia tem tido suas falhas e a necessidade de seu aperfeiçoamento é aceita por todos.

No que diz respeito à igualdade, esse aperfeiçoamento exige que a Democracia desvie o seu foco no sentido de promover a tolerância e o respeito às “diferenças”.

Quanto à liberdade, devemos considerar que com a concepção democrática, nascida na Grécia Antiga, de que o Homem deveria estar destinado a realizar-se como um ser livre, nasceram e evoluiram as idéias liberais que, hoje, incorporadas no Neo-Liberalismo, vêm sendo a bandeira dessa liberdade e, mais uma vez, não consegue conduzir o Homem para a sua realização. Isto acontece porque, considerando-se que o que o Homem sempre buscou foi a felicidade e, por ser ela algo de definição praticamente impossível para todos igualmente, teve seu lugar ocupado pela liberdade, a qual passou a ser o objetivo da vida. A felicidade foi deixada de lado, como algo muito abstrato e sem sentido.

E, apesar de tudo, ainda cresce a corrupção, a falta de idoneidade e honestidade. Cresce a agressividade , a violência e o crime, mesmo entre as crianças. Os sistemas de segurança e de justiça, mesmo aperfeiçoados, continuam sendo soluções paliativas que ajudam, na verdade, a dissiminar, ainda mais, a infelicidade, o que vem acontecendo tanto em países em desenvolvimento como em países desenvolvidos. Nos EUA, por exemplo, como resultado de uma convicção liberal tradicional, o cidadão tem acesso à aquisição e ao porte de armas, no exercício do direito de garantir sua própria segurança e defesa.

Ao considerar a corrupção na sociedade democrática, uma pergunta merece reflexão: Poderia o “Lobby”, como prática legítima da Democracia, numa sociedade capitalista, estar colaborando para uma legalização do suborno financeiro e moral ou da própria corrupção?

No campo da saúde, podemos constatar que, apesar da tecnologia e do avanço da medicina ortodoxa, o estado de saúde da humanidade, hoje, é muito mais preocupante. Os profissionais de saúde estão completamente destituídos de humanidade; capacitam-se apenas no combate às doenças e conhecem, cada vez menos, os doentes e suas necessidades mais profundas; chegam, até mesmo, a evitá-las em nome de um profissionalismo do “não-envolvimento”, o que não deixa de ser a abordagem racional da medicina.

A Organização Panamericana de Saúde emitia um conceito onde dizia que “a saúde, como desenvolvimento humano, é o recurso e a capacidade que cada pessoa tem de viver, aprender, produzir, participar, amar e conduzir sua existência. Atualmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) conceitua saúde como sendo o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade”. Podemos notar que, apesar de ser uma boa tentativa, os dois conceitos são imcompletos, pois não se referem a saúde emocional ou psíquica e não consideram o estado de felicidade.

A Psicologia e Psiquiatria, por sua vez, centram seus sistemas terapêuticos sob o enfoque do tratamento de estados patológicos e não na condição natural humana de busca pela felicidade.

O Dr. Howard C. Cutler[12] fez a seguinte afirmação:

“Num nível básico do ser humano, eu não podia deixar de me sensibilizar com a idéia da felicidade como um objetivo atingível. Como psiquiatra, porém, eu estava sobrecarregado com idéias como a opinião de Freud de que se sente a propensão a dizer qua a intenção de que o homem seja feliz não faz parte dos planos da Criação. Esse tipo de formação levou muitos na minha profissão à conclusão sombria de que o máximo que se poderia esperar era a transformação da aflição histérica em mera infelicidade...raramente consigo me lembrar de ter ouvido a palavra felicidade ser sequer mencionada como objetivo terapêutico.”

O Dr. Joshua David Stone[13] afirma que 98% de todos os concelheiros, psicólogos, psiquiatras e profissionais da área social praticam uma forma de psicologia alheia a da alma. Ou seja, alheia a verdadeira natureza do homem.

A sociedade de hoje é, acima de tudo, emocionalmente enferma. Temos testemunhado o aumento significativo da ansiedade humana, das frustrações, das angústias, da depressão, do estresse, do ressentimento social, do ódio, das doenças chamadas psicossomáticas, enfim.

A primeira preocupação tem sido com a redução do índice de morte e com o aumento do índice da expectativa de vida, sem um direcionamento para a qualidade de vida que se tem vivido. Buscam-se soluções para aumentar a possibilidade de acesso à saúde, mas sem o devido realce para uma qualidade em saúde que não seja meramente tecnológica e sintomática.

O uso de drogas é um sintoma de uma sociedade doente. Mesmo a “cannabis sativa” já foi comprovada científicamente como danosa à saúde, principalmente à saúde psíquica

Porém, em nome da liberdade, países da Europa como Holanda e Bélgica têm permitido o uso da “cannabis” (maconha), assim como outros países das Américas.

A ministra da saúde da Bélgica, Magda Alvoet, declarou que a medida de liberalizar o uso da “cannabis” no país e concentrar a proibição apenas na produção, distribuição e “uso problemático” tem o objetivo de criar um espaço a mais de liberdade.[14]

Um estudo realizado pelo Governo dos EUA revelou que 17% dos norte-americanos com idade acima de 60 anos são dependentes de álcool e de drogas que exigem prescrição médica. Especialistas alertam que os idosos estão, cada vez mais, usando também outras drogas. Dentre as causa desse fato está a solidão.[15]

Uma pesquisa de opinião pública realizada pelo “Pew Research Center for the people and the press” afirma que cerca de 75% dos norte-americanos pensam que os EUA estão perdendo a guerra contra o tráfico de dogras e acreditam que a demanda é tão grande que será impossível deter o consumo de substâncias ilegais.[16]

A Organização Mundial da Saúde prevê que em 20 anos a depressão será a segunda maior causa de morte no mundo, atrás apenas das doenças cardíacas. Diz ainda que o Continente Americano e as regiões do Pacífico, particularmente EUA e Japão, têm o maior número de vítimas de depressão, enquanto a África é a menos afetada.[17]

Segundo um estudo realizado pela Universidade de Maryland, nos EUA, o número de crianças norte-americanas que tomam drogas psiquiátricas tem crescido assustadoramente.[18]

A France Presse, em Paris, divulgou que pessoas ricas com histórico de doença mental ou emocional tendem mais a cometer o suicídio do que as pessoas sem tantas condições financeiras, de acordo com um estudo realizado pelo British Medical Journal (BMJ). Segundo o estudo, as pessoas ricas com problemas mentais ou emocionais sentem-se estigmatizadas, vulneráveis e envergonhadas por terem este tipo de problema.[19]

Como podemos constatar, a felicidade não se encontra nos povos que têm acesso a uma melhor condição econômica, pelo contrário, parece que nos países ricos é grande a infelicidade.

E a Religião? Ela poderia e deveria ser uma instituição que impulsionasse o Homem no sentido do seu aperfeiçoamento pessoal, preparando-o para que ele fosse capaz de construir uma sociedade alicerçada na moral, na solidariedade, no humanitarismo, na tolerância e no amor, onde o homem pudesse se realizar e alcançar a felicidade.

Entretanto, a Religião carrega uma história de luta pelo poder. Poder esse que ela disputava com o Estado e ainda disputa, nos dias atuais. E, em nome dela, inclusive, seres humanos matam seres humanos. Talvez, por isso, alguns estudiosos digam que a Religião foi um obstáculo ao desenvolvimento, mas, quando dizem isso, não se referem, é lógico, à natureza da religião e sim à instituição que ela se tornou no seio da sociedade. A religião, considerando-se a sua natureza mais profunda, é, com certeza, uma ponte adequada para conduzir o homem no caminho do seu aperfeiçoamento individual e social.

Os ensinamentos religiosos foram distorcidos tanto pelo racionalismo e fanatismo como pela própria Instituição religiosa. Muitas vezes, essa instituição tem sido um meio de difusão da intolerância e um meio para a busca de objetivos políticos e materiais. Além disso, cresce, cada vez mais, a diversidade de ideologias religiosas e com ela uma verdadeira competição pelos fiéis.

Aqueles que frequentam os templos religiosos e depositam esperança nos ensinamentos que transmitem têm adquirido um conjunto diferente de problemas psicológicos, emocionais e espirituais. Pois, quando a Religião se ocupa do controle moral da sociedade, se baseia na idéia de que o Homem é de natureza pecaminosa e não intrínsecamente bom e utiliza um sistema de prêmio e castigo; alimenta nas mentes e corações humanos a insegurança, a culpa, a hipocrisia e o medo. Estabelece padrões falsos de moral e colabora para o crescimento da infelicidade, que deveria estar combatendo. Podemos afirmar que, ao optar pelo liberalismo, a Igreja perdeu a capacidade de exercer o controle moral.

Isto se agrava em países onde a maioria do povo professa uma fé religiosa que define como valores morais apenas aqueles que estão ligados ao sexo e não à família e às relações humanas; que valoriza o ganho material em detrimento do espiritual; e que advoga pelo direito individual no lugar da harmonia social.

Vejamos agora as Comunicações, as quais, após a “Revolução Tecnológica”, ocuparam um lugar de proeminência na estrutura social e dos Estados. A mídia assume o papel de formadora da opinião pública e, até mesmo, divulgadora de cultura e, no exercício desse papel, bombardeia a humanidade, através de todos os meios de comunicação, com informações, à serviço do lucro financeiro e da ambição pelo poder de poucos. Difundem valores de natureza duvidosa, alimentando comportamentos inconscientes extremamente danosos para a sociedade como um todo.

Entremeando tudo isto, está a Educação, a qual quero olhar com atenção. Como se caracteriza a Educação na cultura pós-moderna?

As ações têm sido muito dirigidas para o direito ao acesso à educação que todo ser humano tem; mas, não vislumbra o aperfeiçoamento do processo educativo para torná-lo eficaz e eficiente no seu propósito principal.

Por mais que as organizações, sejam elas nacionais, regionais ou internacionais, se dediquem ao aperfeiçoamento dos sistemas educacionais, eles continuam não cumprindo o propósito de formar melhores indivíduos para a sociedade. São sistemas falidos. E porque?

Eles, como subprodutos da cultura pós-moderna, têm uma orientação puramente técnica e materialista. O enfoque está no sustento econômico, no acúmulo de bens, no alcance do maior sucesso material e do maior conforto. Ele gera competitividade, orgulho, egoísmo, preconceitos, separatividade e sentimento de superioridade em relação a outros indivíduos, outros povos, outras culturas e outras nações.

São sistemas que têm caminhado apenas na direção do acúmulo de conhecimentos do mundo objetivo e da preparação profissionalizante para o mercado de trabalho. Dão ênfase ao ganho no lugar de ensinar a como lidar com as perdas.

Em ambientes escolares liberais, pode-se encontrar crianças e jovens desajustados e desequilibrados emocionalmente. Mas, em ambientes escolares mais rígidos diciplinarmente, como os estabelecimentos de ensino religiosos e militares, também encontra-se os mesmos desajustes, porém contidos e abafados.

As crianças não se sentem, quando na escola, como se estivessem em um lugar onde são amadas; não se sentem importantes como pessoas a não ser que consigam competir e vencer. Tornam-se individualistas, incapazes para o relacionamento humano e assim crescem e chegam ao nível superior.

Hoje, normalmente, o jovem tem dificuldade de escolher a profissão que quer seguir. Muitas vezes, é induzido a escolher aquela que lhe dá melhor estabilidade financeira ou que alimente sua necessidade de reconhecimento material, sua vaidade, etc. Afinal, é isso que ele vem aprendendo que é sucesso.

Dessa forma, em um mercado competitivo, proliferam profissionais sem nenhum senso humanitário. Exercem a profissão apenas para satisfazer o seu próprio egoísmo.

De forma que, os sitemas educacionais, desenvolvem valores que são falsos para capacitar o homem para uma vida feliz; em nada colaboram para o aperfeiçoamento do homem como ser humano e, têm gerado um enorme contigente de pessoas incompletas, desequilibradas, desintegradas e fragmentadas. São evoluídas intelectual e fisicamente, mas não emocional, psicológica e espiritualmente.

Para agravar ainda mais esse estado de coisas, vive-se hoje numa sociedade que não mais pretende que a família seja a célula fundamental para a formação de um grupo social sadio. As mulheres se lançam numa aventura de “produção independente”, acreditando que as crianças não necessitam da figura do pai.

As mulheres, em nome da igualdade e liberdade, têm conseguido se equiparar ao homem e ocupam o mercado de trabalho, não só por necessidade financeira, mas porque querem a mesma oportunidade de reconhecimento material. Abandonam ou minimizam a importância de suas funções naturais, as quais não mais são cumprindas ou o são de forma extremamente insatisfatória. O pior é que são instadas e incentivadas a se conduzirem dessa forma. Talvez, até, em nome de intenções “não declaráveis”.

Uma equipe chefiada por Henry Kissinger produziu um documento[20], em 1974, estabelecendo políticas e estratégias a serem implementadas pelo Governo dos EUA, para a redução da população dos países em desenvolvimento.

Nesse documento, uma passagem se refere ao papel das mulheres:

“A condição e a utilização das mulheres nas sociedades dos países subdesenvolvidos são particularmente importantes na redução do tamanho da família...As pesquisas mostram que a redução da fertilidade está relacionada com o trabalho da mulher fora do lar.”

Devido a ausência da mãe no lar, as crianças ficam mais entregues a estranhos e acabam aprendendo a viver sem o amor dos pais, sem a segurança e a estabilidade familiar e, com isso, tornam-se carentes emocionalmente e mais individualistas. As carências emocionais vão se refletir em sua vida adulta e o individualismo vai desenvolver a solidão. Serão mais competitivas, mas não terão a mínima habilidade para as relações humanas e não terão a mínima capacidade de lidar com suas próprias emoções.

Mais e mais, cresce o índice de casamentos desfeitos por pura incapacidade dos cônjuges de resolverem suas diferenças. Mesmo que exista amor entre eles, não conseguem repartir uma vida em comum, pois tornaram-se muito individualistas e egoístas, muito competitivos. Os filhos são o resultado desses lares desfeitos e tendem a desenvolver as mesmas fraquezas, as mesmas incapacidades e, como seres infelizes, perpetuam o processo.

Esse tipo de conseqüência, à qual estou me referindo, está em um estudo de Paul R. Amato, chamado “What Childrem Learn From Divorce”[21]

Mas, existe esperança? O que pode ser feito? e como deve ser feito?

Poderemos, um dia superar todo esse estado de coisas e tornarmo-nos capazes de conquistar a felicidade e nos auto-realizarmos? Podemos ter esperança de construir uma sociedade saudável para as Américas, onde possa crescer a integração entre seus países e a segurança para todos?

CAPÍTULO 4

 

UMA PERSPECTIVA DE ESPERANÇA

 

“ Estou convencido de que o mundo não é um mero pântano onde homens e mulheres se jogam...e morrem. Algo magnificente está ocorrendo aqui em meio às crueldades e tragédias e o desafio supremo à inteligência é fazer prevalecer o que há de mais nobre e melhor em nossa curiosa herança.” [22]

 

 

Diante de todos os fatos até aqui estudados, é inquestionável a necessidade de mudança de rumo para que se possa construir a paz verdadeira.

As políticas existentes no âmbito das Américas têm sido inoperantes e não vão conseguir conduzir a sua sociedade para onde ela realmente quer ir; não conseguirão alcançar o Bem-Comum para essa sociedade.

É certo que, mesmo estando embriagado pelas possibilidades materiais da sociedade pós-industrial, inconscientemente, o homem continua impulsionado por uma força universal em busca de novos níveis de valores, num processo evolutivo lento, natural e inexorável, que o levará para um nível mais elevado de uma espiral ascendente representativa de sua evolução.

Como não poderia deixar de ser, a própria ciência está sujeita a este processo evolutivo. Mesmo ela vem compreendendo melhor as leis universais e aceitando que existe algo a mais, que deve ser considerado para que a humanidade tenha um melhor entendimento do porque de sua existência.

Em 1900, quando Max Planck formulou a Teoria dos Quanta, que demonstrou o “quantum” de energia e apresentou-a como forma de onda electromagnética e corpuscular.

Em seguida, em 1905, Albert Einsten, com sua teoria da Relatividade, revolucionou as certezas da Física, quando erigiu uma nova estrutura espaço/tempo, na qual o espaço deixava de ser tridimensional e o tempo deixava de ser uma entidade independente.

Segundo o professor Jorge Boaventura :

“A Física atual estabelece com grande precisão os valores de algumas constantes. Se apenas um deles for submetido a uma variação, ainda que mínima, conduziria a um universo completamente diferente deste que conhecemos...Elas limitam o âmbito dos nossos conhecimentos científicos, impondo a noção da existência de áres que não apenas ainda não são conhecidas, como não serão conhecidas jamais. É o caso do “tempo de Planck”, 10 elevado a –43 segundos, antes do qual não se conhecerá nunca o que existia. De fato, como assinalamos, no bilionésimo de segundo depois do ‘tempo de Planck’, o universo de hoje teria a dimensão de uma esfera de diâmetro correspondente a 10 elevado a –33 cm. E uma temperatura correspondente a 10 elevado a 32 graus. Ou seja, algo de tão fantástica densidade e de tão colossal temperatura que, diante delas, tudo o que a ciência conhece perderia totalmente a validade...Da mesma maneira, não se pode conceber nenhum móvel que se desloque com velocidade superior a da luz que, uma vez alcançada, transforma o que se tem por matéria, em energia. De outra parte, nenhuma temperatura pode ser inferior ao chamado “zero absoluto”, correspondente, aproximadamente, a –273 graus Celsius. Também, não se pode conceber nenhuma ação mecânica inferior ao chamado “quantum de ação de Planck”, como está evidente que se havia considerado como “partículas materiais” não representa senão o resultado de flutuações de campos que são destituídos de substância....Assim à luz da ciência realmente moderna, qual é a diferença entre matéria e não-matéria? Entre o físico e o metafífico? Assim, os homens “práticos”, que baseiam a sua “objetividade” no que imaginam seja matéria, na verdade, em termos científicos, estão ancorados no século passado.”

Dessa forma, ficou demonstrada a equivalência de matéria e energia. Ambas as teorias revolucionaram a comunidade científica e veio a fazer com que a Física Moderna se estabelece-se no lugar da Física Clássica.

Anos mais tarde, o físico Fritjof Capra analisou os paralelos entre o conteúdo filosófico das teorias básicas da Física Moderna e os ensinamentos místicos tradicionais do Oriente e procurou demonstrar que as transformações trazidas pela moderna Física Teórica pareciam levar a uma visão do mundo muito similar àquela das filosofias orientais. Dessa forma, começamos a resgatar uma sabedoria milenar que haviamos perdido com o advento do Renascimento.

Criou-se, com isso, uma ponte no abismo existente entre o pragmatismo material e a filosofia espiritual.

Acredito, portanto, que será através da própria ciência que será possível a transformação do “estatus quo” cultural da humanidade, libertando-a da escravidão do racionalismo e materialismo.

A Ciência moderna começa a dar sinais de que acredita que, no lugar de ter que afastar-se dos conceitos antrópicos, ao contrário, sugere fortemente que devemos nos aproximar deles. Com isso cresce em importância o melhor conhecimento do homem, ao que se dedica a Psicologia.

Segundo Mário Schemberg, “a Física e a Psicologia são aspectos diferentes da mesma realidade, vistos sob ângulos diferentes.” Ele, também, considera C. G. Jung  o precursor na tarefa de reunir conhecimentos da Física e da Psicologia.

Se os conhecimentos filosófico-espirituais influenciaram a Física, segundo Capra, pode-se também perceber que eles iriam ser de importância na evolução do pensamento em Psicologia.

Assim, a Psicologia continuou evoluindo aliando os conceitos da Física Moderna aos postulados filosóficos espirituais, dando expressão a outros métodos de psicoterapia, alargando a abrangência da Psicanálise ou Psicologia de Profundidade, e expandindo o conceito de Estrutura da Personalidade na direção de um conceito holístico da Consciência.

O homem passou a ser cientificamente considerado como uma entidade psicológica e espiritual.

Esse dinamismo evolutivo fez com que, em 1966, nos EUA, surgisse um movimento que veio a dar nascimento a Psicologia Transpessoal, termo que parece ter sido usado pela primeira vez por C. G. Jung e pelo médico italiano Roberto Assagioli, o qual foi, também, o criador da Psicossíntese.

Segundo a teoria de Carl Rogers, o ser humano tem a capacidade de se compreender a si mesmo e de resolver suficientemente seus problemas a fim de experimentar a satisfação e a eficácia necessárias ao funcionamento adequado. Em cada indivíduo existe uma tendência ao desenvolvimento e a auto-realização; existe um conceito de ideal a atingir. Porém, a pessoa só chega a cultivar essa capacidade potencial num clima de relações humanas favoráveis.

Nosso processo de Auto-aperfeiçoamento, segundo a Psicologia Moderna, é a interação entre o Consciente e o Inconsciente, afim de estabelecer o equilíbrio e a harmonia no fluxo da energia psíquica entre estes dois pólos.

A questão da Natureza Humana é algo que merece ser realçado, pois a idéia pessimista de que o ser humano é, inerentemente, egoísta e de que a agressividade e a hostilidade fazem parte de sua natureza, domina nossa cultura desde o século XVII.

Começando com Thomas Hobbes, que considerava a humanidade violenta, competitiva e egocêntrica, segue-se uma série de cientistas proeminentes, dentre eles Freud, ao longo dos últimos cem anos, os quais defenderam a crença na natureza agressiva do ser humano.

Em contrapartida, em meados do século XVIII, David Hume escreveu sobre a “benevolência natural” dos seres humanos; e, no século XIX, Charles Darwin atribuiu “um instinto de solidariedade” à nossa espécie.

Nos últimos anos, segundo o Dr. Howard C. Cutler, houve centenas de estudos científicos que indicaram que a agressividade não é essencialmente inata e que o comportamento violento é influenciado por uma variedade de fatores biológicos, sociais, situacionais e ambientais.

Vinte cientístas de renome em todo o mundo reconheceram, no texto da Declaração de Sevilha de 1986, que “...é incorreto em termos científicos dizer que temos uma tendência herdada para entrar em guerras ou para agir com violência. Esse comportamento não está programado geneticamente na natureza humana.”

Estudiosos como C. Daniel Batson ou Nancy Eisenberg, da “Arizona State University”, realizaram numerosas pesquisas ao longo dos últimos anos que demonstraram que os seres humanos têm uma tendência ao comportamento altruísta.

Portanto, como eu já havia comentado na introdução, o Homem é um Ser completo, matéria e espírito, dotado de uma elevada potencialidade para o bem, embora, por não estar ainda aperfeiçoado, esteja sujeito a ilusões que o induzem para metas egoístas e desagregadoras. Fundamentado nessa convicção, acredito que esta deve ser a plataforma dos planejamentos políticos e estratégicos que têm por objetivo a conquista da paz e do Bem-Comum.

O Bem Comum, como também já comentei, é aquele “ideal de convivência que, transcendendo a busca do bem-estar, permite construir uma sociedade onde todos, e cada um, tenham condições de plena realização de suas potencialidades como pessoa, e de conscientização e prática de valores éticos, morais e espirituais”.

O Bem-Comum é o ideal de convivência entre indivíduos felizes. E, neste momento, quero resgatar o conceito de felicidade que ficou perdido por tantos séculos, desde que foi substituído pelo conceito de liberdade, na Grécia antiga. Como se fosse possível ao homem ser livre sem ser feliz.

O que seria a felicidade? É possível alcançá-la? E como isso poderia ser feito de forma genuína e duradoura?

Antes de tudo é preciso entender que antes de ser um conceito piegas, a felicidade é o único caminho, a única solução para que a humanidade alcance a paz e construa uma sociedade onde a realização verdadeira seja possível.

A felicidade não depende de crenças religiosas, ela é o objetivo da própria vida. A felicidade é um estado mental de satisfação plena que independe totalmente de quaisquer fatores externos.

Embora a natureza confira ao homem um nível médio de felicidade, ao qual ele sempre retorna, após a sensação de enlevo produzida pelo sucesso efêmero ou a de depressão e tristeza produzida pelos fracassos, perdas e tragédias, é consenso entre os psicólogos de que, qualquer que seja o nível médio de felicidade conferido pela natureza, existem passos que podem ser dados no sentido de trabalhar com o “fator mental” afim de aumentar esse nível e tornar a sensação de felicidade cada vez mais permanente.

O fato de se sentir feliz ou infeliz tem muito pouco a ver com nossas condições absolutas. É mais uma função de como se percebe a situação; da satisfação que se sente com o que se tem.

Mesmo que se tenha saúde, amor, recursos materiais, sucesso, etc, de pouquíssimo impacto serão esses aspectos na sensação de felicidade a longo prazo, se não houver a atitude mental correta.

É interessante o que nos mostra estudos como, por exemplo, o realizado pelo Dr. Larry Scherwitz, que descobriu que pessoas que são mais centradas em si mesmas possuem maior probabilidade de desenvolverem doenças coronárias. Cientistas afirmam que as pessoas às quais faltam fortes laços sociais têm a saúde mais frágil, níveis mais altos de infelicidade e uma maior vulnerabilidade ao estresse.

Mesmo após ser alcançado o objeto do desejo material, ironicamente, não se obtem a satisfação. Outro objeto precisa ser obtido para retirar o indivíduo da frustração anteriormente provocada por uma expectativa de satisfação que não se realizou plenamente; e assim por diante, indefinidamente.

O que importa no desejo não pode ser a possibilidade de ele proporcionar uma satisfação imediata, mas, sim, se ele gera conseqüências positivas ou negativas.

Os desejos materiais, aos quais a sociedade de hoje está sujeita, são um tipo de desejo que leva à conseqüências negativas.

Portanto, felicidade não consiste em se ter o que se quer , mas, sim em se apreciar aquilo que se tem

Não há nenhuma garantia de que a riqueza ou a opulência material, por si só, possa proporcionar a alegria ou a realização que o homem busca alcançar. Sociedades evoluídas materialmente estão repletas de pessoas vítimas de inquietação mental, angustias, frustrações, depressão, crimes e suicídios.

Alguns questionam que uma vida baseada na busca pela felicidade seria, em si, egocêntrica. Entretanto, inúmeras pesquisas revelam que são as pessoas infelizes que costumam ser mais centradas em si mesmas, socialmente retraídas, solitárias e, até mesmo, hostís. Por outro lado, as pessoas felizes são, em geral, consideradas mais sociáveis, flexíveis, criativas, tolerantes e mais capazes de suportar as frustrações diárias e as perdas com mais facilidadade. Há pesquisas que revelam que esses tipos de pessoas demonstram um certo tipo de abertura e disposição à solidariedade.

A felicidade não traz benefícios somente ao indivíduo, mas à família, aos grupos sociais e à sociedade como um todo.

Existem diversos aspectos associados à felicidade. Um deles é a solidão. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que nossa cultura superestima o individualismo e a independência, o homem anseia por intimidade e concentra toda sua energia na busca de companhia que possa curar sua solidão, porém, sustentando sua ilusão de que ainda permanece independente.

Foram realizados diversos estudos ultimamente relacionando a intimidade à saúde. No “Medical Center of Duke University”, um desses estudos concluiu que aqueles que não eram casados ou não possuiam um amigo próximo apresentavam uma probabilidade três vezes maior de morrer, dentro de cinco anos após o diagnóstico, de doença cardíaca do que aqueles que eram casados ou possuiam relações de amizade próximas. Uma pesquisa realizada com moradores de Rozento County, nos EUA, lugar que vive uma colônia de imigrantes italianos, concluiu que as pessoas vivem mais porque se relacionam mais intensamente e com mais confiança uns nos outros. Outras pesquisas realizadas nos EUA relacionaram a falta de intimidade e confiança com deficiências imunológicas, câncer e níveis de colesterol. Esses estudos também demonstraram que pessoas casadas são mais felizes que os solteiros e viúvos e, especialmente, que os separados ou divorciados.

Um outro aspecto é a solidariedade e o altruísmo. Mais uma vez, estudos científicos comprovam que atitudes e comportamentos de solidariedade provocam tranquilidade, maior auto-valorização, alívio do estresse e uma sensação de felicidade.

Outros aspectos ainda existem, e, todos eles exigem o aprendizado e o desnvolvimento de uma atitude mental que permita que se mantenha a satisfação interior estável.

A felicidade não é algo fácil de ser alcançado. O primeiro passo desse caminho é o aprendizado e a educação. Primeiro tem-se que aprender como são prejudicais, não só para o indivíduo como, também, para a sociedade e para o futuro da humanidade, as emoções e os comportamentos negativos. Em seguida, vem a percepção dos aspectos benéficos das emoções e comportamentos positivos. Por fim, vem a determinação de mudar, que é conseqüência da concientização obtida nas fases anteriores. Entretanto, é plenamente possível, principalmente porque ela é a mola propulsora da própria vida e vai se realizar, certamente, devido ao movimento inexorável da evolução humana.

Acredito, porém, que se estamos buscando soluções para estabelecer a paz e a integração entre as nações do continente americano. Se estamos, honestamente, querendo o desenvolvimento da região. Se queremos construir uma sociedade onde impere o Bem-Comum e todas as pessoas tenham os mesmos direitos, as mesmas oportunidades; que elas não tenham o que temer e possam desenvolver suas potencialidades naturais; Precisamos construir uma estrutura forte que auxilie o processo evolutivo natural, afim de acelerá-lo.

Essa estrutura deve ser construída aproveitando as instituições nacionais e regionais já existentes e deve começar um trabalho que, paralelamente aos já existentes – os quais, apesar de serem louváveis, têm apenas conseguido resultados paliativos e, muitas vezes, até mesmo, aumentado o sofrimento – resgate os verdadeiros valores morais e espirituais perdidos que permitem a convivência entre os homens e entre as nações.

Esse trabalho deve ser, basicamente, de educação e de reeducação, através de campanhas e de uma total reconstrução dos sistemas educacionais.

Os sistemas educacionais devem, a par dos conhecimentos intelectuais que fornecem, se dedicarem a atividades como: a prática de valores morais elevados e verdadeiros; o desenvolvimento da inteligência emocional e espiritual; o desenvolvimento das corretas relações humanas; o correto convívio familiar e social, com a concientização da valorização da família e da fraternidade; o aprendizado de como lidar com as perdas e frustrações; o desenvolvimento da solidariedade, da tolerância, da auto-estima, da honestidade; a prática do altruísmo político e administrativo, valorizando as funções humanitárias e sociais das instituições; o aprendizado de como lidar com emoções como a raiva, o ódio, a vaidade, a ansiedade, a angustia; o aprimoramento da ética social fundamentada em valores espirituais; o desenvolvimento da cooperação no lugar da competição; e o desenvolvimento do auto-domínio. Esses sistemas devem permitir que as crianças e os jovens sejam educados num ambiente de amor incondicional e de completa compreensão. Que possuam educadores que sejam a encarnação dos ideais que transmitem.

Processos de reeducação devem ser desenvolvidos para que os pais e educadores escolares possam ser capazes de fazerem as crianças e os jovens acreditarem nesses “novos” valores como ponte para as suas próprias felicidades e a felicidade geral da sociedade. Esses processos podem ter o mesmo conteúdo do processo educativo e devem ser aplicados nos locais de trabalho.

Esta solução só poderá trazer resultados a longo prazo, mas acredito fortemente que essa é a única política que realmente poderá, um dia, tornar possível que as nações do continente americano se integrem na busca da paz duradoura e sejam um exemplo para o resto do mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONCLUSÃO

 

 

Como vimos, apreciando e analisando, honestamente, a realidade que vivem as nações das Américas, não podemos nos furtar a aceitar que as relações entre elas têm sido, através da história, regidas pela diferença de interesses e pela imposição dos interesses dos EUA sobre as demais, o que vem impedindo o estabelecimento de uma integração real, saudável e duradoura.

Esse estado de coisas é possível porque a sociedade Pós-Industrial é totalmente dominada pela cultura Pós-Moderna, a qual se fundamenta na crença no individualismo, seja ele pessoal ou de Estado. Mais grave ainda é que os valores atuais conduzem a sociedade a um estado de infelicidade crescente ou a um estado, intermediário, de espera permanente pela felicidade. O homem dessa sociedade vem protagonizando um cenário desértico por onde caminham, exaustos, vítimas de miragens de remansos paradisíacos, para onde se dirigem eufóricos sem nunca conseguir alcançá-los.

Se as nações das Américas, que compõem o Sistema Interamericano, pretendem realmente estabelecer a integração e a paz no continente, precisam entender que, antes de tudo, aqueles que as conduzem têm de ser homens que compreendam plenamente os conceitos humanitários, que neles creiam fortemente e que deles sejam a própria encarnação.

A convicção de minha esperança é que promovendo condições e oportunidades para que o homem de aperfeiçoe nas corretas relações humanas, podemos garantir que teremos corretas relações de Estado, quando aqueles homens estiverem conduzindo o destino de seus povos e de suas nações.

Acredito que somente esse caminho poderá nos conduzir a realização de nossos sonhos e ao estabelecimento efetivo do Bem-Comum neste continente. Esse pensamento pode parecer utópico, mas se for esta a percepção é porque estamos sujeitos ao embotamento de nossos sentidos e de nossas mentes, provocado pelas nossas convicções racionalistas atuais.

É preciso que compreendamos e defendamos com toda convicção que não importa, entre nós, nações das Américas, quem chegue primeiro na corrida do desenvolvimento e, sim, que todos irmanados e de mãos dadas possamos chegar juntos. A nação ou grupo de nações que primeiro conseguir esse feito irá conduzir o resto do mundo, toda a humanidade.

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

§         BARRETO, Vicente. Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro: unidade I e II. Brasília: ed. UNB, 1982.

§         CASTRO, Terezinha. Organização dos Estados Americanos. LS 833/97. Rio de Janeiro: ESG, 1999.

§         ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). Fundamentos Doutrinários. Rio de Janeiro, 1988.

§         ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). Subsídios para Estudo dos Fundamentos Doutrinários: Assuntos Específicos. V. II. Rio de Janeiro, 1997.

§         MAFRA, Roberto Machado de Oliveira. Geopolítica Introdução ao Estudo. LS 838/99. Rio de Janeiro: ESG, 1999.

§         MEADOWS, Dennis L. Limite do Crescimento. São Paulo: ed Perspectiva, 1973.

§         SHULSKY, Abram N. Silent Warfare. New York: ed. Brassey’s, 1993.

 

 



[1] Conceito da Doutrina Política da Escola Superior de Guerra do Brasil.

[2]  Nietzsche – Assim Falou Zaratrusta.

[3] Jornal do Brasil, ed. 11.6.99

[4] Castro, Moacir Werneck de. “A Porta Aberta”, Jornal do Brasil, ed. 27.7.99

[5] O Globo, ed. 27.8.2000

[6] Os protocolos dos Sábios do Sião. Edições Eliseo LTDA. P.10 e 43. Na Baviera, surgiram os primeiros confrontos entre os proprietários de terras, os “Junkers”, e os judeus, proprietários de capitais. Em 1929, o Gen. Karl Haushofer fundou o Instituto de Geopolítica de Munique, núcleo de idéias e atividades que misturavam o “sonho” e o misticismo de domínio mundial. Situado na Baviera, o Instituto gerou vários livros sobre as doutrinas e os arquinimigos do povo germânico. Daí, é atribuída a origem de um livro de título “Sábios dos Reis do Sião”. Por volta do ano 1933 surgiu uma versão entitulada “os Protocolos dos Sábios do Sião”, a qual é atribuída a intelectuais russos que a introduziram através do Egito, vindo da China, no tempo do Czar Nicolau II. Uma outra versão diz que esta obra foi lançada na Rússia por Serghei Nilus, em 1903, sendo de natureza anti-semita e tendo sido divulgada pela TCHEKA, polícia política czarista. Depois de traduzido em muitas línguas, teve sua origem posta em dúvida, em 1921, pelo jornalista inglês do Times, Philip P. Graves, que provou ter havido plágio de uma sátira do advogado francês Maurice Joly publicada em 1895 (“Dialogue aux enfers entre Maquiavel e Montesquieu”). O autor dos Protocolos dos Sábios do Sião usou de vários trechos do livro de Joly, escrito para desacreditar o governo de Napoleão III, atribuindo a líderes judeus os objetivos da conquista do mundo. Num grande júri realizado em Berna/Suíça, em 1934/1935, o livro foi considerado como falsificação e plágio.

[7] A Teoria da Tríade só foi implementada após o fim do conflito Leste/Oeste – 1989/1990

[8] Em abril de 1968, um grupo de 30 pessoas de 10 países, cientistas, educadores, economistas, humanistas, industriais e funcionários públicos de nível nacional e internacional, reuniram-se na Academia Dei Lincei, em Roma, instados pelo Dr. Aurélio Peccei, empresário industrial italiano, economista e homem de visão, para discutir os dilemas atuais e futuros do homem. Deste encontro nasceu o Clube de Roma – organização informal e internacional.

[9] Em continuidade à um grupo já existente, foi criada, em 1973, sob os auspícios de David Rockfeller, Diretor do Chase Manhattan, com o objetivo de estabelecer um lugar de encontro para os cidadãos mais respeitados dos principais países industrializados não comunistas e distribuídos em três centros: EUA, Europa Ocidental e Japão. Alguns intelectuais e periodistas europeus a indentificaram como “uma conspiração mundial de banqueiros” dirigida por David Rockfeller. É uma associação descaradamente ideológica, com o objetivo de salvar a crise do capitalismo frente à ameaça do Leste comunista e dos embates do “Terceiro Mundo”.

[10] Em 1946 nasceu um projeto de estudo científico e pesquisa de nome RAND com o fim de assessorar à Força Aérea americana em assuntos de Guerra Aérea; dar recomendações de métodos, técnicas e instrumentos que precisariam ser utilizados no futuro. Em 1948, este projeto tornou-se uma organização independente com o mesmo nome RAND, que continuou a trabalhar para a Força Aérea. Nos dias atuais, é patrocinada pelo “Office of the Secretary of Defense and the Joint Staff” dos EUA, com o fim de produzir avaliações sobre, dentre outros assuntos, a política de não proliferação de mísseis, para serem usadas por analistas e planejadores do governo.

[11] Blaise Pascal

[12] M.D. diplomado em psiquiatria pela American Board of Psychiatry and Neurology.

[13] Ph.D. em Psicologia Transpessoal

[14] Artigo intitulado “Bélgica descriminaliza o consumo pessoal da maconha”, veiculado no site da internet cnn.co.br, no dia 20 de janeiro de 2001.

[15] Artigo intitulado “Aumenta o número de idosos alcoólatras e dependentes de drogas nos EUA”, veiculado pelo site da internet cnn.com.br, em 12 de janeiro de 2001.

[16] Artigo intitulado “Norte-Americanos acreditam que guerra contra drogas está perdida” veiculado pela cnn.com.br em 22 de março de 2001

[17] Artigo intitulado “OMS prevê depressão como a segunda maior causa de morte em 20 anos”, veiculado pela cnn.com.br, em 9 de janeiro de 2001.

[18] Artigo intitulado “Denunciam abuso de antidepressivos em crianças”, veiculado pela cnn.com.br, em 22 de novembro de 2000.

[19] Artigo intitulado “Ricos têm mais tendência a cometer o suicídio”, veiculado pela Folha on Line, em 9 de fevereiro de 2001.

[20] “Implications of Worldwide Population Growth for U.S. Security and Overseas Interests” (NSSM 200).

[21] Publicado no site do Population Reference bureau.

[22] C.A. Beard